Enquanto o resto do mundo viveu uma diminuição de investimentos feitos por firmas de venture capital, a América Latina recebeu o maior fluxo de capital já visto na história: Rappi, Quinto Andar, Loggi e Buser são exemplos de empresas que receberam aportes de investidores externos. E, dentre todos os setores investidos, o que mais se destaca é o mercado de negócios voltados para finanças, mais conhecidas como fintechs. 

De acordo com uma pesquisa da consultoria Finnovating, cresceu em 130% o fluxo de injeção de capital realizado em empresas desse segmento por toda a região, alcançando US$ 2,6 bilhões. De todo esse montante, o Brasil foi o país que recebeu mais recursos (US$ 1,3 bilhão) e abrigou os aportes mais valiosos do setor de fintechs: Nubank (US$ 400 milhões), Inter (US$ 341 milhões) e Creditas (US$ 231 milhões). 

Sem dúvidas, 2019 foi um ano para ficar na memória das companhias brasileiras. Mas e 2020? 

Para entender melhor as perspectivas reservadas para os próximos meses, conversamos com entidades do setor, consultorias e profissionais do mercado para entender as expectativas, oportunidades e desafios que aguardam as fintechs. 

Conhecendo o cenário 

Segundo dados divulgados em agosto de 2019 pelo Instituto Locomotiva, o Brasil conta com 45 milhões de pessoas desbancarizadas. Ou seja, uma população que não possui registro em nenhum dos bancos tradicionais ou que não fazem movimentações na sua conta há mais de seis meses. Público que, segundo o instituto, movimenta R$ 817 bilhões ao ano. 

Em paralelo, o brasileiro é um povo altamente digitalizado. A edição 2019 da TIC Domicílios, pesquisa que analisa anualmente o comportamento do usuário com a web, identificou que 70% de toda população (o equivalente a 126,9 milhões de pessoas) acessa a internet com regularidade, realizando atividades como pesquisar preços, fazer encomendas ou solicitar serviços de aplicativo. 

Juntando esses dois fatores, fica mais fácil entender como oferecer um serviço financeiro por um meio digital é um mercado com grande potencial por aqui.

E, de fato, o setor de fintechs presenciou um aumento significativo de empresas durante o período de 2018 e 2019: as 377 startups existentes no primeiro ano se tornaram 504 empresas na análise seguinte, salto de 34%, de acordo com levantamento da Finnovation

A pergunta que não quer calar: bolha ou boom? 

Um crescimento tão expressivo dentro de um espaço de tempo tão pequeno poderia ser o início de um movimento de saturação, ao concentrar um número elevado de companhias fornecendo serviços similares. Mas não é essa a percepção do mercado. 

“Eu não acredito que a gente esteja vivendo uma bolha. Acredito que estamos vivendo uma movimentação da parte bancarizada do setor financeiro. Quem tinha conta em banco grande está indo para uma fintech”, afirma Cláudio Sertório, sócio-líder de serviços financeiros da KPMG no Brasil. 

De acordo com Sertório, o crescimento deste setor acontece por meio de uma série de fatores, como redução de custos (pela inexistência de espaço físico e sistema legado), produto criado para uso por smartphone e um atendimento mais centrado no usuário.

“Tudo isso começou a combinar e abriu portas importantes para indústria financeira, com a possibilidade de redução de custos combinada com uma geração de novos consumidores que queriam ter um experiencia melhor com os bancos e a indústria financeiras como um todo”, explica. 

Todo esse movimento de digitalização da experiência bancária aumentou a confiança e uso de produtos comercializados pelas fintechs. De acordo com estudo Brasileiro e o dinheiro, da MindMiners, entre 2017 e 2019 mais do que dobrou o número de brasileiros que utilizam algum serviço dessas novas empresas – de 25% para 55%. 

As fintechs se consolidaram como grupo de startups que mais chama a atenção por ao menos um dos seguintes fatores: incluir pessoas que antes não tinham acesso a itens como um cartão de crédito e também apresentar um cuidado maior com a experiência do usuário.  

Mas, apesar do bom momento, as empresas do setor já sabem que precisarão se adaptar à uma nova realidade ao longo de 2020 para se manterem relevantes.