Procurando seu lugar ao sol 

A edição 2019 da Pesquisa Fintech Deep Dive, feita pela consultoria PwC em parceria com a Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs) utilizou o perfil de 205 empresas pesquisadas para definir o cenário geral desse ramo no Brasil. E, pela análise, é possível ver como a grande maioria das startups envolvidas nesse cenário passa pelas mesmas dificuldades que as enfrentadas por qualquer empresa de outro segmento. 

De acordo com o levantamento, 62% das companhias estão em início de operação, com clientes e faturamento abaixo de R$ 5 milhões. Do total de empresas pesquisadas, quase metade conta com, no máximo, 10 funcionários, sendo que 47% não receberam investimento e 43% apontam a dificuldade de obter recursos como principal barreira à gestão de negócio. Ou seja: um cenário não muito desigual do enfrentado por outras startups. 

Quando se fala de modelos de negócio dentro do mercado fintech, mais da metade das firmas atua apenas em três segmentos: meios de pagamento, crédito (que contempla financiamentos e negociação de dívida) e bancos digitais

E esses serviços são os que mais recebem capital externo. De acordo com as informações do estudo feito pela Finnovating, 51,7% de todo o dinheiro investido em fintechs na América Latina foi direcionado para a criação dos chamados “neobanks”; já as fintechs concentradas em crédito ficaram com 29,68% desse total e a divisão de pagamentos recebeu 8,68%; 

Porém, seguir por esse mesmo caminho não é uma aposta segura. Todos os especialistas que conversaram com a Computerworld acreditam que as fintechs de pequeno porte só conseguirão se destacar no mercado caso apresentem um serviço diferente do que já é oferecido pelas empresas mais conhecidas e bom o suficiente para chamar a atenção dos clientes. E, por consequência, das firmas de venture capital. 

Ser diferente é essencial 

“Se a empresa não tem um valor agregado real para o cliente ela não se sustenta”, afirma Luis Ruivo, sócio da PwC e um dos responsáveis pela pesquisa em parceria com a ABFintech, “A marca pode ser atraente em um primeiro momento, mas o cliente precisa ver esse valor.” 

E de qual forma as novas startups podem se firmar? Um caminho pode estar na segmentação de seu produto para determinado público-alvo.  

“Eu vejo [esse momento] como uma questão de onda. A primeira onda foram as fintechs prestando um serviço de qualidade para o público insatisfeito com os bancos tradicionais. Agora estamos na segunda onda, na qual as empresas precisam se nichar para atender a um público mais fora do radar”, acredita Bruno Diniz, cofundador da consultoria financeira Spiralem e fundador do livro O fenômeno Fintech, que explora a expansão desse mercado no Brasil. 

Como exemplo de empresas que estão indo por esse caminho, Diniz menciona as fintechs Linker e Cora, com serviços especializados para atender pequenas e médias empresas, e o Target, banco digital voltado para caminhoneiros. 

E dentro desse cenário no qual personalização é a palavra-chave, as novas tecnologias ganham um espaço cada vez maior para aumentar a competitividade dessas empresas.

De acordo com o estudo Fintech Deep Dive, o investimento em inteligência artificial e modelos de machine learning são vistos como prioridade entre os negócios, por conta da capacidade dessas ferramentas de entregar o serviço mais indicado para cada as necessidades de cada cliente. 

“As empresas podem usá-los para acompanhar indicadores econômicos e regular a carteira do cliente”, explica Ruivo, da PwC. “E, na parte de marketing, [o machine learning] pode criar modelos preditivos para entender se o cliente tem uma propensão a comprar determinado produto e direcionar campanhas para incentivá-lo. São exemplos que geram valor”. 

Apesar do considerável desafio de se destacar em um mercado disputado e com empresas consolidadas, as companhias que atuam no setor têm como vantagem estarem na ativa durante um momento no qual o governo está prestes a liberar serviços que irão promover grandes mudanças. 

Novidades a caminho 

Dentre os novos serviços que chegarão ao mercado financeiro está o Sistema de Pagamento Instantâneo (SPI), cuja implementação começará no final deste ano e que permitirá a transferência de valores entre contas durante sete dias da semana, 24 horas por dia. 

Outra novidade é a autorização para a prática de Sanbox Regulatório, que permitirá a experimentação de novos produtos dentro de um ambiente regulado e com menos restrições legais, de forma a fomentar a inovação no mercado.