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Vale: entre ânimo com minério e ceticismo dos estrangeiros com as medidas de transformação da mineradora


Por   /  23 de maio de 2020  /  Sem comentários

SÃO PAULO – A ação da Vale (VALE3) vem despontando na bolsa como uma das mais resilientes ao cenário da crise do coronavírus atual. Nos momentos mais agudos do pânico do mercado, os ativos VALE3 apareceram como uma das boas opções de investimento por fundos, com a busca por ações mais ligadas ao cenário global em um cenário de retomada da China após o pico da pandemia do coronavírus (enquanto outros países ainda vão passar pela fase mais aguda da doença), ao mesmo tempo em que o minério de ferro não foi tão impactado quanto as demais commodities.

Isso pode ser observado através do desempenho das ações da companhia: no acumulado do ano, os papéis caem 5,68%, uma pequena baixa em relação ao Ibovespa, de 28,94% no mesmo período.
Esse movimento acontece menos de um ano e meio depois do desgaste de imagem sofrido após a tragédia de Brumadinho, em 25 de janeiro de 2019, que fez grande parte do mercado abandonar o investimento na mineradora.

A companhia, aliás, vem buscando adotar medidas que acabam por contribuir na busca por uma melhora da sua imagem. Além de ter ficado na linha de frente para conseguir que testes rápidos para o coronavírus chegassem ao Brasil, a mineradora anunciou no último dia 13 de maio que investirá ao menos US$ 2 bilhões para reduzir em 33% suas emissões de carbono (diretas e indiretas) até 2030. Em comunicado, ela ressaltou que o valor do investimento é “o maior já comprometido pela indústria da mineração para o combate às mudanças climáticas”.

O anúncio de um montante tão significativo pode ser um sinal de que a busca por adotar as melhores práticas ambientais, sociais e de governança, representadas pela sigla em inglês ESG, vem importando cada vez mais para os potenciais sócios das empresas. Isso é particularmente emblemático no caso da Vale, que teve a sua imagem seriamente abalada por conta dos rompimentos de barragens em 2015 e 2019 e Minas Gerais, que ceifaram centenas de vida e levaram a um rastro de destruição ambiental em diversas cidades. Após Brumadinho, a mineradora ainda trocou o presidente, se comprometeu em descomissionar barragens de maior risco e construiu uma unidade de tratamento para despoluir reservas hídricas afetadas.

Contudo, as tragédias seguem sendo marcantes para aqueles que pensam em ter ou possuem ativos da companhia. No mesmo dia em que a Vale anunciou o investimento para reduzir emissões de carbono, o maior fundo soberano do mundo, da Noruega, com US$ 1 trilhão em ativos, excluiu a companhia (além da brasileira Eletrobras e outras quatro petroleiras estrangeiras) de suas decisões de investimento, destacando justamente as questões ambientais, mostrando que o cerco vem se fechando cada vez mais.

O Norges Bank começou a usar a emissão de gás carbônico como critério de veto a investimentos há quatro anos. Ele afirmou que já se desfez de toda sua posição nas empresas vetadas, mas que levou um longo tempo para a operacionalização das suas vendas. Isso por conta da situação de mercado, incluindo a falta de liquidez de alguns ativos.

O fundo possui US$ 9,6 bilhões investidos no Brasil, sendo US$ 7,6 bilhões em ações de 136 companhias e US$ 2 bilhões em renda fixa. Como um dos maiores do mundo, ele tem capacidade de influenciar a tomada de decisões de outros investidores. Sobre a Vale, o fundo afirmou que ela deveria ser excluída por “riscos inaceitáveis que ela contribuía” ou por ser responsável por sérios estragos ambientais, lembrando o rompimento das barragens. Procurada pelo InfoMoney para se posicionar sobre o assunto, a Vale não se manifestou até o fechamento da matéria.

Assim, a medida tomada pelo fundo norueguês e os argumentos para se desfazer de sua posição de US$ 375 milhões ou R$ 2,2 bilhões, segundo dados de 2019, atingiu em cheio a mineradora, ainda mais em um momento em que ela busca melhorar a sua imagem. Nesse sentido, o anúncio de medidas para redução de emissão do carbono no mesmo dia em que a companhia saiu dos fundos da Norges foi particularmente emblemático em meio aos sinais de que a companhia pode ter demorado muito para atuar.

Atuação suficiente?

Fabio Alperowitch, da Fama Investimentos e investidor de empresas sustentáveis há mais de 30 anos, destaca que a iniciativa da Vale é positiva, apontando que é um dos maiores projetos do mundo na frente de redução de carbono. Porém, o gestor segue cético com a companhia, dado o complicado histórico do ponto de vista ambiental.

“Depois de dois eventos super negativos [Mariana e Brumadinho], é muito natural que uma empresa precise tomar atitudes por questões de sobrevivência, deve resposta a investidores, para a sociedade e a funcionários e, neste sentido, ela precisa fazer ainda mais do que poderia se esperar dela”, afirma.
Alperowitch reforça, contudo, que a companhia deveria tomar outras medidas que, a princípio, poderiam gerar menos repercussão, mas que são importantes, como desistir dos pedidos de concessão de lavra em áreas indígenas.

De qualquer forma, o gestor vê como importante a iniciativa do fundo soberano norueguês de fazer investimentos levando em conta a preocupação com o impacto ambiental, o que também pode influenciar outros investidores a aumentarem a sua seletividade com ativos levando em conta as questões de ESG.

Com relação à possível volta de investidores (principalmente estrangeiros) para a ação da mineradora, Alperowitch reforça que há todos os perfis e “diferentes graus de tolerância”. “Há quem veja que as medidas tomadas até agora pela companhia são suficientes para voltar a comprar a ação da companhia, há quem espere a resolução de outras questões, como a indígena”, avalia.

Porém, no longo prazo, a tendência é de que as empresas tomem cada vez mais consciência da importância dos temas ambientais, catalisadas pelas iniciativas de grandes fundos. Nesse sentido, também se destaca a iniciativa da BlackRock, que anunciou no início do ano que colocaria as mudanças climáticas no centro de sua estratégia, um plano que inclui sair de investimentos em títulos e ações de empresas de carvão térmico de suas carteiras ativas.

Fernando Fontoura, gestor da Persevera, também reforça que a Vale percebeu que ela precisaria dar uma atenção maior aos temas ambientais e passou a se movimentar nessa direção.

“Contudo, esse é um esforço que tem um período de maturação e é importante que ele seja muito genuíno dentro da corporação, já que demora em mostrar resultados”, avalia. Além disso, os resultados podem ser subjetivos, com o impacto sendo principalmente na percepção da sociedade e dos investidores sobre as iniciativas. Assim, a saída do fundo da Noruega é apontada por Fontoura absolutamente como uma “decisão de retrovisor”, dadas as dificuldades em fazer uma análise prospectiva sobre as medidas.

Independentemente disso, Fontoura também aponta que essas medidas adotadas pelos grandes fundos têm um impacto para os ativos da companhia, ajudando a explicar porque ela segue relativamente barata frente a seus pares – ainda que tenha registrado uma performance melhor do que o Ibovespa no ano.

A avaliação é de que a companhia tem conseguido retomar gradativamente a confiança dos investidores mais de um ano após Brumadinho, em que ela foi praticamente esquecida pelo mercado por conta da tragédia. Porém, ela ainda enfrenta um cenário desafiador uma vez que, mesmo com a resiliência do minério de ferro com o cenário de retomada da atividade da China após o pico da pandemia de coronavírus, os investidores ainda estão reticentes com os setor de commodities como um todo.

Além disso, cabe ressaltar, um dos motivos para a commodity estar por volta dos US$ 100 é a perspectiva de redução de produção da própria Vale por conta do alto número de casos de coronavírus no Brasil, que pode levar ao aumento das medidas de isolamento social. Assim, se ela ganha com o valor mais alto da commodity, é impactada com a menor produção. O preço spot de referência chegou a ser negociado a US$ 97,15 nesta semana, a cotação mais alta desde setembro.

Otimismo no sell-side, mas com algumas questões no radar

Entre as instituições financeiras e casas de análise do chamado sell-side (segmento em que os profissionais “vendem” relatórios sobre a atual situação da empresa), a visão é majoritariamente positiva: de 26 casas que cobrem o papel, 21 (ou 80,8% recomendam compra dos ativos, 4 (ou 15,4%) possuem recomendação neutra, enquanto apenas 1 (ou 3,8%) possui recomenda venda.

Uma das casas é o Credit Suisse, que apontou 10 motivos para a manutenção do papel da companhia como top pick do setor também quase ao mesmo tempo que os anúncios do Norges Bank e da Vale de redução de carbono.

Dentre os motivos, além da retomada da China voltando a funcionar apoiando os preços do minério de ferro, com as taxas operacionais dos fornos subindo e os estoques de aço caindo rapidamente, o fato da ação ser uma espécie de hedge cambial, já que uma depreciação de 10% do real gera um aumento de 5% do lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda) também é apontada como um fator.

Para os analistas, a Vale é uma história de re-rating com vários catalisadores, como o descomissionamento de barragens de rejeitos, possível acordo com os promotores sobre Brumadinho e fim de problemas regulatórios. A expectativa é de que haverá um restabelecimento da política de dividendos em 2020, com um dividend yield (indicador calculado pelo dividendo pago por ação dividido pela cotação do papel) de 9%.

Um dos últimos pontos destacados é justamente que os investidores estrangeiros ainda estão pouco posicionados na ação. Assim, um potencial aumento da exposição do investidor de fora à medida que  as pendências judiciais forem sendo resolvidas pode gerar um momento positivo significativo para as ações, avalia.

Porém, esse é um ponto que ainda é alvo de questionamentos ao levar em conta o aumento da importância das questões de ESG que, ainda que estejam apenas “engatinhando” no Brasil, têm ganhado cada vez maior importância nos Estados Unidos e é bem relevante entre os investidores europeus.

Para Alperowitch, apesar do tema ESG ser inicial no Brasil e de haver investidores com um diferente perfil de tolerância com relação às questões ambientais, sociais e de governança para investir em uma empresa, no geral, o tema tem avançado e ganhado importância. “A mesma notícia [de Brumadinho], dez anos atrás, talvez não levaria a tanta reação dos fundos de tirar a Vale da carteira. Se fosse daqui dez anos, se houvesse o mesmo caso, a reação poderia ser ainda maior. O fato é de que há a tendência de mais e mais investidores olhando para isso no seu portfólio de investimentos”, avalia.

A Vale está de olho nisso – e está se movimentando para mudar a percepção do mercado. Se ela será bem sucedida, só o tempo (um longo tempo, por sinal) dirá.

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Fonte: Infomoney Blog Epolitica

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