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Indígenas recusam vacinas da covid a flechadas e exigem presença de missionário


Por   /  24 de fevereiro de 2021  /  Sem comentários

Depois de uma manhã de chuva pesada na cidade de Lábrea, às 14h40 do dia 2 de fevereiro, um helicóptero da Força Aérea Brasileira levanta pouso no aeroporto da cidade do sul do Amazonas. Dentro dele, cinco funcionários do Distrito Sanitário Indígena (Dsei) e da Funai, e doses de vacina contra a Covid-19 para imunizar 231 pessoas. O rumo é a terra indígena Jamamadi, onde vivem 399 indígenas da etnia de mesmo nome. Ao pousar na aldeia, localizada à margem do rio Purus, os visitantes são recepcionados por indígenas portando arcos e flechas. E são obrigados a retornar.

O motivo da negativa em receber os funcionários do Dsei do Médio Rio Purus e as vacinas tem nome.  E é em inglês: Steve Campbell, um missionário norte-americano, da igreja Greene Baptist Church, antigo conhecido dos Jamamadi e responsável por conflitos entre os indígenas e Funai e Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), segundo fontes entrevistadas pelo Bocado

Leia mais: ‘Fui obrigado a entrar em terra indígena com um missionário’, diz servidor da Funai’

Desde que se iniciou o planejamento da vacinação dos Jamamadi, eles afirmam que só aceitariam a entrada das equipes de saúde na aldeia caso Campbell participasse da ação, organizada pelo Dsei com apoio da Funai. A reportagem apurou que para conseguir entrar nas aldeias, com respaldo de Brasília, a Funai local teria negociado com o missionário e prometido aos indígenas que Campbell acompanharia a ação de vacinação, mas, após embates de última hora, a presença dele na equipe teria sido cancelada. Os índios se revoltaram e a situação se agravou.  “Está muito complicado, estamos vivendo num clima de tensão muito grande e os profissionais estão assustados”, afirma um funcionário que atua na região e que pediu para não ser identificado. 

No Brasil, os indígenas têm direito a permanecer isolados, de acordo com a Constituição. Na imagem, etnia que vive isolada no Acre (Foto: Gleison Miranda/Funai)

A tensão em relação à vacinação começou antes da chegada das doses do imunizante. De acordo com relatos, sob influência do missionário e de pastores de igrejas pentecostais da região, os indígenas estariam se negando a aceitar a imunização sob os argumentos de que a Covid “é uma invenção dos brancos”, que eles “seriam feitos de cobaia”, que um chip seria implantado em seus corpos. “Temos ouvido todo tipo de fake news por aqui, que vacina mata, que a vacina tem o número da besta, que é feita de células de feto, que ela contém o vírus do HIV. Há toda uma propaganda contra a vacina”, afirma Hoadson Leonardo Silva, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

As pressões para a permissão da entrada do missionário na terra indígena (TI) não são uma novidade. Os Jamamadi estão impedindo a entrada da equipe do Dsei nas aldeias desde setembro do ano passado e afirmam que só permitirão a presença dos funcionários caso Campbell volte à terra indígena. Em dezembro de 2018, o missionário foi expulso da região pela Funai após ter entrado ilegalmente na terra dos índios isolados da etnia Hi-merimã, que é vizinha aos Jamamadi. Desde então, ele está proibido pela Funai de entrar novamente na área, causando revolta nos indígenas.

No Brasil, os indígenas têm direito a permanecer isolados. É uma política instituída em 1987, em meio à elaboração da nova Constituição, que reconheceu uma série de outros direitos antes negados. A estrutura pública encarregada desse assunto foi criada para garantir a proteção dos indígenas e das terras onde vivem, impedindo invasões. Os isolados vivem de forma autossuficiente, com recursos oferecidos pela natureza, e contatá-los pode ser mortal.

Ao impedir a entrada dos funcionários do Dsei nas aldeias, a saúde dos Jamamadi fica desamparada. Com uma população de 399 pessoas, de acordo com censo da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) de 2020, algumas pessoas fazem uso de medicamentos para hanseníase, hipertensão e outros remédios de uso continuado. Mas estão sem o tratamento, conforme a reportagem apurou, já que alguns indígenas da etnia, liderados pelo cacique Abadias Jamamadi, não autorizam a entrega da medicação. 

Steve Campbell, ao lado de sua mulher, Robin, entre os indígenas Jamamadi; missionário chegou a solicitar à Funai um registro para que fosse considerado membro da etnia, o que foi negado

O restabelecimento do atendimento à saúde está condicionado ao retorno do missionário à região, como mostra documento obtido pela reportagem do Bocado. “Estamos com problemas desde 2019, mas eles se intensificaram em 2020, quando o atendimento na aldeia foi interrompido”, relata um funcionário que atua na região. “Há ameaças aos profissionais que atuam ali e o missionário interfere em todo o diálogo com os Jamamadi.” 

Em novembro do ano passado, um grupo de 60 Jamamadi ocupou a base de Canuaru, que serve como proteção da TI Hi-Merimã, para reivindicar o retorno de Campbell à terra indígena. A situação ficou tensa e a Funai chamou uma escolta policial para guardar a base.

‘Ele é perigoso’

Steve Campbell é um velho conhecido dos Jamamadi. Ele fala a língua indígena e tem bastante influência junto a alguns deles, com quem convive desde criança. Campbell chegou à região em 1963, levado pelos pais, também missionários. O norte-americano tem uma casa dentro da aldeia São Francisco, a mais povoada de todas, e desde que foi expulso da área passa parte do tempo em Lábrea, onde também tem uma casa.

Acusado de proselitismo religioso, e de interferir na cultura e religiosidade dos Jamamadi, ele também chegou a ter um mercadinho na aldeia, onde vendia arroz, sal, açúcar, café, ovos e itens de higiene. Os insumos chegavam de Porto Velho (RO), via avião da missão.

Força Aérea Brasileira transportou equipe e vacinas para aldeias indígenas, mas foi proibida de entrar no território dos Jamamadi (Foto: Divulgação/FAB)

Mesmo estando fora da área indígena, ele é responsável por conflitos envolvendo os indígenas e os “manipula”, conforme afirmam lideranças da região, que se preocupam com o desfecho do conflito. “Ele é perigoso. Usa os Jamamadi para ir contra a Funai, Sesai, lideranças indígenas. Os Jamamadi estão impedindo atendimento à saúde dentro das aldeias, tudo incentivado por ele”, diz Zé Bajaga, liderança indígena local, da etnia Apurinã.

Leia mais: Organizações religiosas dos EUA mapeiam indígenas no Brasil e não interrompem ações com isolados mesmo durante a pandemia

“O missionário recebe os Jamamadi em sua casa, em Lábrea. Como ele ficou muito tempo com eles, conhece todos os mitos e crenças deles. E persegue as pessoas que se opõem a ele. Alguns Jamamadi e Jarawara (povo que também vive na região do Purus) têm medo dele. Já me disseram que mexer com ele é mexer com ‘inamati’, que significa demônio”, completa.

De acordo com Claudemir Nogueira da Silva, secretário da Federação das Organizações e Comunidades Indígenas do Médio Purus (Focimp) e da etnia Apurinã, “tem alguns indígenas doentes, e a equipe de saúde não pode entrar. Os Jamamadi estão sendo usados pelo missionário, que quer entrar na terra. Então eles defendem o missionário e por isso estão batendo de frente com Funai e Sesai, mas estão prejudicando o seu povo”.

Vítimas de manipulação

“A situação é complexa”, define Hoadson Leonardo Silva, do Cimi.  “Como ele está na região há mais de 50 anos, exerce uma dominação muito grande sobre os indígenas. E os manipula.” Silva entende a negativa em receber o atendimento à saúde como uma “retaliação”, após a expulsão de Campbell da área. 

Para ele, no entanto,  não há dúvidas que os Jamamadi são “vítimas” dessa situação e que acabam prejudicados. “Não tem como pensar uma terra indígena sem a presença da Sesai, da Funai”, afirma. “Vejo tudo isso com muita preocupação. O que ele quer é converter, fazer proselitismo religioso e contatar os isolados, com apoio da Damares”, diz, referindo-se à ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, que afirma ser a favor da revisão da política de isolamento de indígenas.

O que Campbell deseja é acessar os hi-merimã, endossa Zé Bajaga. “Isso os coloca em enorme risco.” Para ele, que trabalhou na Funai até maio de 2020, o missionário já causou problemas demais para os Jamamadi. “Eles já nem fazem mais o rapé (pó feito de folhas de tabaco e usado com fins espirituais), porque o Steve dizia que era coisa do demônio”, afirma. 

Investigação MPF

A entrada ilegal do missionário em área de isolados rendeu uma investigação na Funai, que encaminhou o caso ao Ministério Público Federal (MPF). Em 27 de novembro do ano passado, por meio de portaria, o procurador da República Fernando Soave instaurou um inquérito civil para apurar a entrada irregular na terra Hi-Merimã.

“Considerando o relatório da Funai de ingresso ilegal na Terra Indígena Hi-Merimã, o qual reporta a invasão por parte do missionário norte-americano Steve Campbell na TI Hi-Merimã, colocando em risco a integridade física desse povo indígena isolado da FUNAI; (….) resolve instaurar inquérito para apurar o ingresso irregular de missionários na TI Hi-Merimã, habitada por índios em isolamento voluntário, localizada no município de Lábrea.”

No documento, o MPF notificou a Frente de Proteção Etnoambiental (FPE) Madeira Purus para apresentar informações sobre as atividades de Campbell. Em resposta à solicitação do MPF, a frente enviou um relatório em que aponta o perigo que o missionário representa. “Há indícios de que Campbell esteja apoiando Abadias Jamamadi nas ações que este vem empreendendo contra instituições do Estado brasileiro. E caso essa hipótese venha a se confirmar trata-se de algo gravíssimo, pois representa, de fato, um missionário americano impondo entraves e obstáculos à atuação do Estado brasileiro no cumprimento de seu dever institucional de proteção aos territórios indígenas e de assistência à saúde indígena”, diz o documento, assinado por Izac da Silva Albuquerque, coordenador da FPE. Abadias Jamamadi, cacique da aldeia, tem uma relação muito próxima com Steve Campbell.

Mesmo com a expulsão, Campbell chegou a solicitar à Funai um Registro Administrativo de Nascimento Indígena (Rani) para que fosse considerado jamamadi. O pedido foi negado. Ele também fez um pedido oficial à Funai de entrada na terra e, em agosto de 2019, a solicitação foi negada: “Cabe ressaltar que o ingresso não autorizado na TI Hi-Merimã pode trazer consequências extremas, como a possibilidade de transmissão de doenças que podem dizimar a população inteira do Povo Hi-Merimã”. 

A tentativa de contato com os isolados hi-merimã também não é novidade. Em 1995, o indigenista Rieli Franciscato, à época coordenador da então Frente de Contato Purus e falecido em setembro do ano passado, interceptou uma expedição clandestina, realizada por três missionários da organização missionária Jovens com uma Missão (Jocum), e apreendeu seus diários de campo. Num dos trechos, o missionário fez a seguinte anotação: “Na verdade o diabo não está satisfeito em perder terreno para nós e vai tentar o que estiver ao seu alcance para nos fazer recuar, voltar atrás, ir embora, mas em nome do Senhor Jesus Cristo continuaremos até o tempo determinado pelo Senhor; esta terra, este lugar, o povo hi-merimã pertence ao Senhor Jesus Cristo”.

A reportagem entrou em contato com a Funai, com a Sesai e escreveu para a Greene Baptist Church, no Maine (EUA). Sesai e a igreja não retornaram.

À Funai, a reportagem perguntou se o órgão estava negociando a entrada do missionário com a equipe de saúde na terra indígena, como foi apurado. Questionou também se o documento de 2019, no qual a Funai nega o pedido de Steve Campbell para entrar na terra indígena, segue vigente. 

A resposta foi: “A Fundação Nacional do Índio (Funai) esclarece que as autorizações para ingresso em Terras Indígenas estão suspensas desde o dia 17 de março, com exceção dos serviços essenciais, conforme a Portaria nº 419/PRES 2020. Sendo assim, não houve, por parte da Funai, autorização para ingresso do Sr. Stephen Campbell na Terra Indígena Jamamadi”.

*Matéria originalmente publicada no site Bocado

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Fonte: Reporter Brasil

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