Especialistas analisam se teste viral é realmente um indicador da conexão de um casal

 


Layne Berthoud, uma terapeuta ocupacional que mora em Los Angeles, não esperava que sua recente publicação no TikTok alcançasse quase 5 milhões de visualizações em cinco dias.
— Eu vi um pássaro hoje — diz Berthoud, de 30 anos, ao marido, Alexandre Berthoud, também de 30 anos, no vídeo.
O homem faz uma pausa, momentaneamente intrigado com a novidade.
— Ah, é? — pergunta ele.
Naquele momento, o marido, sem saber, passou com louvor no mais recente teste viral de relacionamento das redes sociais: a teoria do pássaro. A dinâmica é simples. Um dos participantes aponta um pássaro para o outro — ou, numa variação comum, relata um encontro fictício com um pássaro ocorrido mais cedo no mesmo dia — e aguarda uma resposta. O participante que demonstra curiosidade passa no teste. O participante que não demonstra, falha.
O teste tem como objetivo medir a disposição do parceiro em responder ao que os terapeutas chamam de “pedidos de conexão”, um conceito popularizado pelo pesquisador de casamentos John Gottman.
Gottman, que trabalha com sua esposa, Julie, há muito argumenta que os casais mais felizes reconhecem prontamente e regularmente, ou “se voltam para”, as centenas de investidas que cada pessoa faz ao outro ao longo do dia.
Um estudo clássico seu concluiu que os casais que permanecem casados ​​se voltam para as investidas um do outro em cerca de 86% das vezes, aqueles que se separam fazem isso em apenas 33% das vezes. Mas será que a teoria do pássaro realmente representa uma medida significativa da conexão de um casal?
— Tenho sentimentos contraditórios sobre isso. Queremos que os casais se aproximem um do outro, e uma maneira de fazer isso é com esses pequenos gestos que, na verdade, não significam nada: “Que pássaro legal!”, “Olha aquele barco!”, “Que carro bonito!” — argumenta Carrie Cole, que, como diretora de pesquisa do Instituto Gottman.
O que preocupa Cole é a ideia de testar seu parceiro com um cenário artificial e depois dar muita importância aos resultados.
— E se o seu parceiro falhar? Porque não somos perfeitos. Casais felizes não são perfeitos. E aí? — questiona.
‘Estamos bem?’
O “teste do pássaro” é o parâmetro de relacionamento do momento nas redes sociais, mas está longe de ser o único a fazer sucesso. Em um exemplo recente, muitos usuários do TikTok — geralmente mulheres — aderiram à “teoria da casca de laranja”. Ela consiste em pedir ao parceiro para fazer algo que você possa fazer facilmente, como descascar uma laranja. Se ele fizer, ótimo! Se não, sinal vermelho!
Alguns meses depois, o debate sobre o “tratamento de princesa” começou. Alexandra Solomon, psicóloga clínica e apresentadora do podcast “Reimagining Love” (Reimaginando o amor, traduzido do inglês), disse que esse tipo de teste ou conversa nas redes sociais lembrava os questionários de relacionamento que costumavam aparecer em revistas para adolescentes e mulheres. Os vídeos da Teoria dos Pássaros são dominados por mulheres testando seus parceiros.
— Uma das perguntas que levamos para dentro e ao longo de nossos relacionamentos íntimos é: “Está tudo bem? Como estamos?” — aponta, acrescentando que sente muita compaixão pelo motivo pelo qual esse tipo de teste se populariza.
A enorme quantidade de vídeos recentes sobre a teoria dos pássaros, e os milhões de visualizações que recebem, revelam algo sobre nossa sede coletiva de saber o que faz os relacionamentos íntimos fracassarem ou prosperarem, segundo Solomon. E esses testes podem oferecer uma sensação de validação.
— Há um certo ar de superioridade se seu parceiro passar no teste. Os vídeos demonstram uma “repulsa coletiva em relação ao que temos que suportar — diz Solomon.
Postar uma foto de um teste de pássaro reprovado pode oferecer uma espécie de camaradagem, disse ela, explorando o estereótipo do homem azarado que está tão em voga atualmente.
Uma oportunidade para uma conversa mais profunda
Apesar da popularidade dos testes do TikTok, especialistas em relacionamentos afirmam que eles geralmente não oferecem muitas informações relevantes sobre a saúde de um relacionamento — e podem, obviamente, ter o efeito contrário.
— Se eles falharem no teste, espero que as pessoas não interpretem isso como um sinal de que o relacionamento está fadado ao fracasso. Espero que vejam isso como uma oportunidade para uma conversa mais profunda sobre como atender às suas necessidades — sugere Cole.
Layne é feliz no casamento, então ela tinha um palpite de que seu marido passaria no teste, embora muitos parceiros de usuários do TikTok tenham “falhado” — sendo indiferentes ou oferecendo uma resposta morna. Seu marido, por sua vez, não tem conta na plataforma de vídeos e nem sequer sabia da existência do vídeo até que sua esposa ligou para avisá-lo de que estava começando a viralizar. Ele disse que se divertiu bastante com os comentários, a maioria deles positivos.
— Ver pessoas debatendo a vida alheia em um vídeo de 30 segundos e todas as suposições que elas fazem é simplesmente hilário. É como um estudo completo sobre a humanidade — brinca ele.
Mas o casal afirma que nunca se testam de forma significativa e se esforçam para estar presentes no relacionamento todos os dias: lavando a louça quando não estão com vontade, comprando presentes atenciosos um para o outro e, sim, recorrendo às pequenas demonstrações de conexão um do outro.
— Se eu realmente tivesse dúvidas profundas sobre relacionamentos, provavelmente não gravaria e definitivamente não publicaria — acrescenta Layne.

Lorena Spurio/The New York Times

Leia matéria completa  em O Globo https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2025/11/04/o-que-a-teoria-do-passaro-que-viralizou-no-tiktok-revela-sobre-o-seu-relacionamento.ghtml

Tue, 04 Nov 2025 14:24:51 -0000

 

 


Layne Berthoud, uma terapeuta ocupacional que mora em Los Angeles, não esperava que sua recente publicação no TikTok alcançasse quase 5 milhões de visualizações em cinco dias.
— Eu vi um pássaro hoje — diz Berthoud, de 30 anos, ao marido, Alexandre Berthoud, também de 30 anos, no vídeo.
O homem faz uma pausa, momentaneamente intrigado com a novidade.
— Ah, é? — pergunta ele.
Naquele momento, o marido, sem saber, passou com louvor no mais recente teste viral de relacionamento das redes sociais: a teoria do pássaro. A dinâmica é simples. Um dos participantes aponta um pássaro para o outro — ou, numa variação comum, relata um encontro fictício com um pássaro ocorrido mais cedo no mesmo dia — e aguarda uma resposta. O participante que demonstra curiosidade passa no teste. O participante que não demonstra, falha.
O teste tem como objetivo medir a disposição do parceiro em responder ao que os terapeutas chamam de “pedidos de conexão”, um conceito popularizado pelo pesquisador de casamentos John Gottman.
Gottman, que trabalha com sua esposa, Julie, há muito argumenta que os casais mais felizes reconhecem prontamente e regularmente, ou “se voltam para”, as centenas de investidas que cada pessoa faz ao outro ao longo do dia.
Um estudo clássico seu concluiu que os casais que permanecem casados ​​se voltam para as investidas um do outro em cerca de 86% das vezes, aqueles que se separam fazem isso em apenas 33% das vezes. Mas será que a teoria do pássaro realmente representa uma medida significativa da conexão de um casal?
— Tenho sentimentos contraditórios sobre isso. Queremos que os casais se aproximem um do outro, e uma maneira de fazer isso é com esses pequenos gestos que, na verdade, não significam nada: “Que pássaro legal!”, “Olha aquele barco!”, “Que carro bonito!” — argumenta Carrie Cole, que, como diretora de pesquisa do Instituto Gottman.
O que preocupa Cole é a ideia de testar seu parceiro com um cenário artificial e depois dar muita importância aos resultados.
— E se o seu parceiro falhar? Porque não somos perfeitos. Casais felizes não são perfeitos. E aí? — questiona.
‘Estamos bem?’
O “teste do pássaro” é o parâmetro de relacionamento do momento nas redes sociais, mas está longe de ser o único a fazer sucesso. Em um exemplo recente, muitos usuários do TikTok — geralmente mulheres — aderiram à “teoria da casca de laranja”. Ela consiste em pedir ao parceiro para fazer algo que você possa fazer facilmente, como descascar uma laranja. Se ele fizer, ótimo! Se não, sinal vermelho!
Alguns meses depois, o debate sobre o “tratamento de princesa” começou. Alexandra Solomon, psicóloga clínica e apresentadora do podcast “Reimagining Love” (Reimaginando o amor, traduzido do inglês), disse que esse tipo de teste ou conversa nas redes sociais lembrava os questionários de relacionamento que costumavam aparecer em revistas para adolescentes e mulheres. Os vídeos da Teoria dos Pássaros são dominados por mulheres testando seus parceiros.
— Uma das perguntas que levamos para dentro e ao longo de nossos relacionamentos íntimos é: “Está tudo bem? Como estamos?” — aponta, acrescentando que sente muita compaixão pelo motivo pelo qual esse tipo de teste se populariza.
A enorme quantidade de vídeos recentes sobre a teoria dos pássaros, e os milhões de visualizações que recebem, revelam algo sobre nossa sede coletiva de saber o que faz os relacionamentos íntimos fracassarem ou prosperarem, segundo Solomon. E esses testes podem oferecer uma sensação de validação.
— Há um certo ar de superioridade se seu parceiro passar no teste. Os vídeos demonstram uma “repulsa coletiva em relação ao que temos que suportar — diz Solomon.
Postar uma foto de um teste de pássaro reprovado pode oferecer uma espécie de camaradagem, disse ela, explorando o estereótipo do homem azarado que está tão em voga atualmente.
Uma oportunidade para uma conversa mais profunda
Apesar da popularidade dos testes do TikTok, especialistas em relacionamentos afirmam que eles geralmente não oferecem muitas informações relevantes sobre a saúde de um relacionamento — e podem, obviamente, ter o efeito contrário.
— Se eles falharem no teste, espero que as pessoas não interpretem isso como um sinal de que o relacionamento está fadado ao fracasso. Espero que vejam isso como uma oportunidade para uma conversa mais profunda sobre como atender às suas necessidades — sugere Cole.
Layne é feliz no casamento, então ela tinha um palpite de que seu marido passaria no teste, embora muitos parceiros de usuários do TikTok tenham “falhado” — sendo indiferentes ou oferecendo uma resposta morna. Seu marido, por sua vez, não tem conta na plataforma de vídeos e nem sequer sabia da existência do vídeo até que sua esposa ligou para avisá-lo de que estava começando a viralizar. Ele disse que se divertiu bastante com os comentários, a maioria deles positivos.
— Ver pessoas debatendo a vida alheia em um vídeo de 30 segundos e todas as suposições que elas fazem é simplesmente hilário. É como um estudo completo sobre a humanidade — brinca ele.
Mas o casal afirma que nunca se testam de forma significativa e se esforçam para estar presentes no relacionamento todos os dias: lavando a louça quando não estão com vontade, comprando presentes atenciosos um para o outro e, sim, recorrendo às pequenas demonstrações de conexão um do outro.
— Se eu realmente tivesse dúvidas profundas sobre relacionamentos, provavelmente não gravaria e definitivamente não publicaria — acrescenta Layne.