“E de quem é a culpa? Não é dos políticos, mas sim dos intelectuais, que criaram os modelos de sociedade. Jesus Cristo era um intelectual, [Martinho] Lutero era um intelectual, [Adam] Smith era um intelectual, os iluministas eram intelectuais. Deveriam ser os intelectuais a escolher o modelo de sociedade do qual iríamos viver. ” 

De forma interessante, De Masi explica que o Brasil (“apesar de ter um complexo de vira lata e pensar que é a segunda categoria do mundo”) foge um pouco à regra por ter um modelo próprio. Criado, segundo ele, pela capacidade de pensadores como Darcy Ribeiro, Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre de colocarem em livros as bases que fundaram e ainda influenciam o comportamento dos brasileiros. 

“Eu chego a chamá-los de ‘Inventores do Brasil. Apesar de Cabral ter descoberto país, foram intelectuais como Darcy Ribeiro, com seu livro O povo brasileiro; Sérgio Buarque de Holanda, com Raízes do Brasil; Gilberto Freyre com Casa Grande e Senzala e mesmo o trabalho de Fernando Henrique Cardoso que ajudaram a inventar o Brasil”, explica. 

Um nova cultura de globalização 

Falando sobre os impactos da pandemia na indústria, De Masi relembra o modelo atual de globalização, na qual os países ditos de primeiro mundo têm o monopólio da criatividade, dos laboratórios e universidades, enquanto as nações de segundo mundo contribuem com uma força de trabalho mais qualificada e os países de terceiro mundo abrigam as fábricas e a mão de obra operacional. 

O sociólogo acredita que a globalização também está contribuindo para criar um movimento inverso, no qual países ditos terceiros estão trabalhando no seu desenvolvimento intelectual, saindo de um papel mais mecânico. “Está florescendo uma nova globalização, a globalização cultural. Graças aos meios de transporte e a expansão dos veículos de mídia.”  

De Masi também chama a atenção para a expansão da globalização financeira. Essa, pelo contrário, prejudicial ao mundo do ponto de vista da sociedade “A [globalização] cultural quer redistribuir a riqueza e o saber, dar oportunidades. E a globalização financeira quer reunir todas as riquezas nas mãos de poucas pessoas.” 

Perguntado sobre a possibilidade de um novo capitalismo, De Masi acredita que é uma possibilidade, mas esse novo modelo não poderia ser chamado de “capitalismo”, pois o trabalho de Adam Smith se baseia da crença de que o ser humano é egoísta – aspecto não muito positivo para a vida em sociedade. 

Outra questão abordada pelo sociólogo é o conceito de “mão invisível”, que funcionaria como um disciplinador do egoísmo humano para equilibrar o mercado.

“Ninguém nunca entendeu de verdade [o termo]. Adam Smith fala da mão invisível em apenas três linhas. Três linhas em um livro de mil páginas. A mão invisível é um conceito praticamente místico, é uma citação de Shakespeare”.

Falta de representantes globais 

Voltando ao tema Covid-19, De Masi acredita que a gravidade da situação fará com que as pessoas refaçam a estruturas de pacto social. Usando como exemplo a Itália, seu país-natal, o sociólogo contextualiza que grande parte das mortes de pessoas idosas aconteceram em casas de repouso (também conhecidas como asilos) e que, após a pandemia, esse tipo de situação deve sofrer mudanças profundas. 

“É uma coisa injusta e me envergonho desta grande praga italiana. Agora, ocorre um novo pacto social no qual, assim como o progenitor cuida, protege, alimente e veste a criança, ela irá proteger, cuidar e dar suporte ao idoso, assim como se cuida de uma criança”, diz. 

Outras duas questões que devem ser abordadas com mais força, de acordo com De Masi, é a situação dos imigrantes e a desigualdade social causada disparidade econômica entre ricos e pobres. 

“Warren Buffet, o quarto [homem] mais rico do mundo, disse que ‘A luta de classe existe. Somos os ricos que estamos fazendo com os pobres. E estamos vencendo’. Os ricos deveriam ter medo dos pobres, porque se eles ficam muito pobres há grandes chances de haver uma revolução, como aconteceu na metade do [século] 17”, explica. 

O novo líder de um mundo pós-pandemia 

Falando sobre a postura de lideranças globais para a pandemia, De Masi, acredita que o mundo poderia estar em uma situação um pouco melhor. “O momento é terrível, porque as lideranças que temos agora estão apenas preocupadas em manter seu poder, mas não têm nenhuma ambição de implementar um modelo de vida melhor. Absolutamente [o líder] não é Trump, absolutamente não é Putin e nem os líderes europeus.