A Repórter Brasil questionou ainda por que o site Painel de Informações do Programa Seguro-Desemprego, lançado pelo governo em 2018, não é atualizado desde dezembro daquele ano. “A atualização do Painel de Informações do Programa Seguro-Desemprego foi descontinuada porque a quantidade de acessos ao sistema não justificava sua manutenção, a qual dependeria de emprego de pessoas e de recursos orçamentários”, informou. A pasta não respondeu às críticas, feita por economistas, de falta de transparência por parte do governo. Leia aqui a íntegra da nota

Caged suspenso

Apesar do silêncio do governo, notícias de trabalhadores perdendo seus empregos ou sofrendo redução de jornadas e rendimentos proliferam país afora.

Anne Elizzi Maria da Silva, de 20 anos e moradora do Recife, foi demitida em 6 de abril por chamada de vídeo do seu emprego de atendente de telemarketing de aluguel de veículos. Anna Patrícia Almeida, de 48 anos, foi demitida ao fim de março da escola na Zona Sul do Rio onde era auxiliar de secretaria, após se recusar a trabalhar presencialmente em meio à quarentena, com medo de infectar a mãe de 85 anos com quem mora. Saimon Dickel Schmidt, de 18 anos, foi demitido no dia 14 de seu primeiro emprego no sistema de arquivamento médico e estatístico de um hospital em Sapiranga, no interior do Rio Grande Sul.

Todas essas histórias virariam números no Caged, registro de contratações e demissões formais mantido pelo Ministério da Economia. Esses dados são enviados obrigatoriamente pelas empresas ao governo todos os meses. Desde o início de 2020, no entanto, os números do cadastro não são divulgados pela gestão Jair Bolsonaro.

Pandemia aumentará número de desempregados e demitidos, enquanto indicadores de mercado de trabalho do governo estão desatualizados ou enfrentam problemas (Foto: Jorge Araujo/Fotos Publicas)

O problema aconteceu com a migração do envio de dados pelas empresas de um sistema próprio do Caged para o eSocial, que unifica o envio de informações tributárias, previdenciárias e trabalhistas pelo setor privado ao governo. Com a mudança, ao menos 17 mil empresas deixaram de informar os dados de desligamentos em janeiro e fevereiro, segundo o Ministério da Economia. Diante do problema, a pasta comunicou em 30 de março a suspensão da divulgação dos dados do Caged por tempo indeterminado.

Sobre a situação, o Ministério da Economia informou à Repórter Brasil que “criou um grupo técnico para discutir metodologia de análise dos dados mensais do emprego formal” e “a expectativa é que o grupo apresente proposta para divulgação de dados mensais do emprego formal até o fim de maio de 2020”.

Ainda conforme o ministério, “o cenário de pandemia causada pela covid-19 tem dificultado a autorregularização de parte das empresas” que não preencheram devidamente os dados de admitidos e desligados no eSocial.

Pelo telefone

Já a Pnad Contínua teve a coleta presencial suspensa em meados de março, como forma de proteger os pesquisadores do risco de contaminação e transmissão do coronavírus. Na tentativa de manter a pesquisa, o IBGE está realizando a coleta por telefone, mas a taxa de resposta está em cerca de 60% na média nacional, segundo Cimar Azeredo, diretor-adjunto de pesquisa do IBGE, comparado a 90% quando a coleta era feita presencialmente nos domicílios.

“A Pnad Contínua não foi desenhada para ser feita por telefone, por ter perguntas longas e um questionário grande”, afirma Azeredo à Repórter Brasil, lembrando que outros países enfrentam problemas semelhantes. Além disso, diz o diretor, muitas pessoas não atendem à ligação do instituto devido à má experiência com serviços de telemarketing. E quando atendem, ficam com medo de passar informações, por temer golpes.

O IBGE também enfrenta problemas para conseguir os números de todos os 211 mil domicílios que compõem a amostra da Pnad Contínua. A maior dificuldade para contatar pessoas, segundo o porta-voz do IBGE, acontece no meio rural.

“O fechamento do mês de março sendo muito difícil e por isso foi postergado”, relata Azeredo. “Precisamos que a população entenda que ficar no apagão estatístico diante de uma pandemia é muito ruim, pois as pessoas que estão hoje organizando o combate à epidemia precisam de números.”

Conforme o diretor, ainda não é certo se todos os itens da Pnad poderão ser divulgados em 30 de abril “O problema não é só o tamanho da amostra, mas como ela está distribuída [regionalmente no país]. Temos uma Coordenação de Método e Qualidade que vai analisar isso”, diz Azeredo.