
Faltam seis meses para a aplicação da Lei nº13.709/18, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), inspirada na lei Europeia GDPR. Desde o escândalo internacional envolvendo o Facebook e a consultoria Cambridge Analytica e outros casos de vazamento de dados pessoais por parte de grandes empresas, a preocupação com a cibersegurança cresce mundo afora. Paralelamente, amplia-se o uso de tecnologias que utilizam dados pessoais e as empresas ficam cada vez mais dependentes delas.
Leia mais na IT Trends
- O impacto das legislações de privacidade no mundo de TI
- Cibersegurança deve gerar 3,5 milhões de empregos até 2021
A regularização é inevitável e, segundo especialistas, importante para a privacidade da população e para as relações comerciais do País no exterior, mas a ausência de políticas públicas após sua sanção, em 2018, prejudica a adequação das empresas, sobretudo para as pequenas e médias. As grandes corporações tendem a sofrer menos com o impacto da Lei, principalmente as que já possuem relações comerciais com a Europa e, desde 2016, tiveram que se adequar às normas de segurança de dados da região. Entretanto, a rede de fornecedores locais das grandes companhias também precisa se adequar com conformidade para não perder negócios.
O diretor de engenharia da Fortinet, empresa especializada em cybersegurança, Alexandre Bonatti, conta que os primeiros meses após a sanção da lei foi de ceticismo e amadurecimento da ideia para muitos empresários brasileiros. “Por isso, acho que as empresas demoraram a se adaptar. Com a lei promulgada e prazo estipulado, entraram então para um modo de desespero”, conta.
Durante a implementação da GDPR, as empresas europeias, assim como as brasileiras, também consideraram o prazo de adequação curto. Entretanto, a advogada especialista em direito digital, Patrícia Peck, explica que o cenário europeu de governança empresarial e o contexto cultural da população sobre o tema já estavam mais estabelecidos.
“Alguns atos fundamentais necessários para que uma legislação fique bem estabelecida envolve não apenas fazer a lei. Você tem que fazer a lei acompanhada de uma política pública para implementação. Você dissemina os mecanismos para viabilizar a implementação da legislação em todos os setores da sociedade, da pequena empresa à grande empresa, do setor público ao privado”, comenta.
Sobre a possibilidade de prorrogação do prazo de adequação, Patrícia alerta para as possíveis consequências nas relações comerciais do País. “O pensamento sobre prorrogação da lei pode nos afetar no ponto de vista econômico, criar barreira comercial, então assim, por mais que se diga ‘precisamos de prazo’, devemos considerar o que significa ter mais prazo. O que nós não fizemos em dois anos que faríamos agora? Mais quanto tempo? Qual é o plano de ação? Ou seja, logicamente existe uma questão complexa que outros países estão fazendo o dever de casa”, considera Patrícia.
A advogada lembra ainda que as adequações exigem soluções tecnológicas, das quais empresas de menor porte têm mais dificuldade de cumprir devido ao alto investimento. “Poderia ter linha de crédito para que o empresário pudesse contratar soluções tecnológicas, porque tem empresas que vão precisar implementar medidas de segurança para proteger dados virtuais e isso requer investimento. Você não tem como ficar em conformidade com essa legislação sem investir”, afirma.
Outros desafios
O sócio-líder de cibersegurança para a América Latina da Ernest Young, Demétrio Carrión, diz que o maior desafio das empresas é dimensionar o impacto da lei e adaptar a política interna à proteção de dados. Para aqueles que estão atrasados, Carrión alerta para o fator de risco, porém lembra que pouco se sabe sobre como a lei irá operar e ser fiscalizada. Minimamente, o executivo recomenda que as empresas que ainda não iniciaram o processo tenham como provar que têm condições de gerenciar os dados pessoais dentro da regulamentação.
Para Bonatti, da Fortinet, a compreensão da lei é o primeiro desafio encontrado pelos empresários. “O primeiro grande desafio nosso é que nossos clientes estejam preparados para isso, principalmente a capacitação. Como a Lei ainda não foi instituída, ainda existe um buraco negro e as empresas estão um pouco perdidas com a forma que devem seguir, para que elas possam pelo menos iniciar o processo”, comenta.