Renato Miranda, dono de uma dessas plantações, não vendeu uma única árvore até hoje.

A Suzano não está sozinha nas alegações de roubo de terras contra ela. Acusações semelhantes foram feitas também em relação à  principal concorrente da Suzano, a Fibria. A empresa chegou ao estado do Espírito Santo na década de 1960, durante a ditadura militar,  deslocando dezenas de quilombos em uma época em que não havia legislação para proteger os direitos à terra. 

Uma vez deslocados, os membros da comunidade foram forçados a se dispersar; alguns se estabeleceram na periferia das cidades onde hoje quase todos vivem na pobreza, enquanto outros se juntaram ao movimento dos sem-terra, vagando entre os assentamentos informais e na luta por um pedaço de terra. Das 12 mil famílias quilombolas que viveram na região durante a década de 1960, apenas 1.200 permanecem residindo em pequenas ilhas cercadas por um  deserto verde  de árvores de eucalipto em desenvolvimento.

O ativista Marcelo Calazans, que trabalha para a Fase, uma coalizão ambiental e social do Espírito Santo, disse que a empresa também desflorestou áreas ao longo da mata ciliar dos rios. O Código Florestal brasileiro proíbe a remoção de vegetação nativa ao longo de rios, córregos, lagos e represas, pois serve como habitat para plantas e animais nativos, ao mesmo tempo em que previne enchentes e escoamento do solo.

A Fibria respondeu que “não adota ou tolera práticas ilegais em suas operações”.

Governo impulsiona e lucra com a indústria da celulose 

Especialistas dizem que o governo brasileiro fracassou em grande parte em regulamentar a indústria de celulose e papel e não zelou pela proteção das terras de comunidades tradicionais, embora tenha fornecido apoio financeiro substancial à indústria. 

Os proprietários de plantações normalmente recebem subsídios elevados do governo, recuperando cerca de 75% dos custos de produção em três anos. Ao mesmo tempo, o BNDES investiu generosamente em empresas de papel e celulose e tem participações significativas na Suzano e na Fibria. A compra da Fibria pela Suzano fornecerá ao banco aproximadamente R$ 8,5 bilhões, com o BNDES mantendo 11% do controle da companhia combinada.

“É chocante, na verdade, o quanto o governo brasileiro estimula uma concentração de riqueza e poder corporativo”, expressou Simone Lovera, diretora executiva da Global Forest Coalition (GFC), uma aliança internacional de ONGs que defendem os direitos dos povos das florestas.

“Não há nada pior que você possa fazer a uma terra do que plantar eucalipto. E, no entanto, até hoje, [grandes plantações brasileiras de eucalipto] são financiadas pelo financiamento climático  como ‘reflorestamento’”, explicou Lovera.

De acordo com o Compromisso Climático do Brasil, estabelecido nos termos do Acordo de Paris de 2015, o governo federal compensará suas emissões de carbono ao reflorestar 12 milhões de hectares, dos quais, apenas 2 milhões serão de florestas nativas, enquanto 10 milhões de hectares serão plantações de monoculturas – incluindo eucalipto.

Os cientistas enfatizam que as plantações de eucalipto suportam pouca biodiversidade, enquanto também sugam grandes quantidades de água, o que pode afetar negativamente o fluxo dos cursos de água e os aquíferos vitais para os agricultores de subsistência. A Suzano e a Fibria refutam essa alegação, afirmando que: “uma pesquisa realizada por especialistas mostra que o consumo de água pelo cultivo de eucalipto não é diferente de outras culturas”. 

Mantendo os consumidores globais felizes 

“A Suzano não tem medo do governo [brasileiro], tem medo dos consumidores europeus”, disse Calazans. Mais de 70% da receita líquida da empresa é proveniente das exportações para mais de 90 países – apenas para celulose esse percentual sobe para 91%.