De acordo com defensores dos direitos humanos e ONGs, os produtores de eucalipto têm explorado regularmente as deficiências nas regulamentações sobre os direitos de terra, enquanto os conflitos têm sido agravados por incentivos e subsídios do governo para a produção de eucalipto.

Ativistas no Maranhão alegam que a própria Suzano se comportou de forma semelhante a fazendeiros como Renato Miranda, roubando terras de comunidades tradicionais, deslocando famílias e tornando os meios de subsistência insustentáveis. A Suzano contesta essas alegações.

Eucalipto coloniza o norte

Renato Miranda não foi o único empresário que decidiu começar a plantar eucalipto no Maranhão. Há cerca de uma década, o cultivo da monocultura tornou-se investimento lucrativo na região. Antes, a maioria do eucalipto brasileiro era cultivada na Mata Atlântica. No entanto, a empresa inaugurou sua primeira fábrica de celulose no cerrado em 2015, nos arredores da cidade de Imperatriz, no Maranhão. 

A expectativa dos empresários do agronegócio eram altas, achando que o eucalipto logo se tornaria a próxima grande safra do cerrado. Os fazendeiros correram para reivindicar amplas extensões de terra em lugares como Forquilha, às vezes legalmente, outras não.

‘Ninguém sabia para onde ir, todos estavam apavorados’, lembra Antônia Lima, que ainda mora em Forquilha

A própria Suzano também reivindicou terras na região –  cerca de 300.000 hectares, segundo o Forum Carajás – embora a empresa tenha se recusado a fornecer um número preciso.

No entanto, a expansão da empresa gerou polêmicas. De acordo com ativistas e acadêmicos, a Suzano reivindicou terras que já estavam sendo usadas por comunidades tradicionais para agricultura de pequena escala e colheita de frutas – seus principais meios de subsistência. A empresa fechou acordos com líderes comunitários  para evitar conflitos, apesar de muitos que ali estavam dizerem que a terra, seu principal meio de subsistência, foi prejudicada pela monocultura.

Francisco das Chagas, que administra o Centro de Direitos Humanos no município de Santa Quitéria, no norte do Maranhão, descreveu a chegada da Suzano em 2002 como catastrófica para as comunidades locais. Como muitas comunidades e moradores não tinham tinham a escritura da propriedade, “a Suzano agiu de imediato e se autoproclamou proprietária dessas terras, portando documentos que consideramos falsos”, comentou. “Durante todo o tempo, eles tinham guardas de segurança e policiais ao seu lado”.

De acordo com Chagas, a comunidade Cabeceiro do Rio deixou de existir porque as plantações de eucalipto da Suzano usurparam a terra plana e arável que, antes, era usada para plantio pela comunidade tradicional. Sem ter como produzir na terra, os moradores se viram obrigados a migrarem para cidades e vilarejos vizinhos.

‘Sem terra não há para onde correr. A terra é vida para nós’, disse Marcione Ramalho moradora do cerrado

Em alguns casos, as comunidades tradicionais recorreram com sucesso ao governo local para reafirmar a posse da propriedade que historicamente ocuparam. Em outros casos, juízes simpatizantes aos apelos diretos da Suzano determinaram que as comunidades invadiram a propriedade da empresa e, assim, confirmaram o direito da Suzano à terra. Segundo Chagas, atualmente, existem 23 comunidades em conflito com a Suzano somente em Santa Quitéria.

A Suzano respondeu a essas alegações dizendo: “A Suzano, como outras empresas florestais brasileiras, cumpre rigorosamente todas as leis e regulamentos que envolvem suas atividades comerciais, inclusive no que diz respeito à compra de terras para o plantio de novas culturas”. Leia aqui a nota das empresas

Paralisação da produção no norte

Apesar da corrida às terras do Maranhão e dos conflitos causados, os sonhos de eucalipto da Suzano no Norte ainda não se materializaram completamente. Muitas das plantações que se espalham pelo estado – plantadas pela empresa e seus empreiteiros – permanecem sem colheita. 

José Antônio Gorgen, apelidado de Zezão, um dos mais conhecidos produtores de soja do Maranhão, explicou o porquê: se uma plantação de eucalipto está fora do raio de 300 quilômetros da fábrica de processamento da Suzano, o transporte das árvores é caro demais para ser lucrativo.