Tudo isso forneceu as bases para que a comandante fosse contratada pela Ocyan, em 1999. “Como entramos muito novos nessa área e passamos por diversos testes e experiência, acabamos sendo preparados para o que vem a seguir.” Carla também trabalhou na Coreia do Sul, na construção do estaleiro da Daewoo, época em que chegava a ficar 42 dias em alto mar. Na volta ao Brasil, foi trabalhar imediatamente na sonda, mas em um cargo muito mais operacional do que o de comandante. Ela explica que “a comandante acaba liderando o navio todo, o que faz da posição algo muito mais de gestão”.

EVOLUÇÃO CULTURAL

O trabalho é complexo e ter o apoio da empresa e dos colegas é essencial. Carla conta que essa questão também mudou e evoluiu com o tempo. “Quando eu entrei, era uma época de incertezas. Não sabíamos como ia ser a aceitação, o trabalho… No começo, fomos muito testadas.” A atual comandante experimentou a sensação de, por um tempo, ser a única mulher do navio – e todos a sua volta queriam saber se ela realmente daria conta da função.

Clarisse revela que consegue notar essa mudança de percepção no dia a dia e que isso é resultado da disseminação de informação e das iniciativas femininas para conquistar diversas áreas, inclusive aquelas que são estereotipadas como masculinas. “As mulheres estão entrando forte na área de engenharia. Estão se interessando e sendo valorizadas”, diz. Como exemplo, revela que entre suas 12 funcionárias há mecânicas, coordenadoras de segurança, marinheiras e analistas de máquinas, funções historicamente masculinizadas e feitas com primor por essas mulheres. 

A gerente destaca a importância desse avanço para o próprio funcionamento da companhia. “Estamos com o melhor resultado de todos os tempos em segurança, capacidade e economia. É a melhor sonda na lista da Petrobras. Quanto mais você faz uma gestão participativa, mais você incrementa o funcionamento da empresa.” Segundo ela, o trabalho em equipe faz com que a parte masculina do time receba bem o projeto, se interesse por possibilidades de melhoria, tente descobrir maneiras de fazer a diferença e repense suas atitudes. “É uma cultura e os programas ajudam muito. Comunicação é a base”, revela Clarisse.

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Com sucesso e representatividade, Clarisse e Carla protagonizam uma igualdade de gênero necessária e mostram que a capacidade e a dedicação sempre devem ser base de tudo. É um trabalho árduo e a gerente de plataforma conta que sua maior dificuldade é estar sempre atenta para que tudo funcione sem erros e acidentes. “Prezamos a segurança a bordo, ninguém pode se machucar. Por mais que sejamos de exatas, nosso maior foco é nas pessoas.” Tal percepção parte do fato de que o setor petrolífero é muito sensível. É uma indústria que precisa operar 24 horas por dia. “Se um equipamento parar por uma hora, nós não recebemos esse tempo de pausa. Precisamos de atenção constante, manutenção em dia”, diz, explicando que há uma engrenagem gigantesca por trás de toda essa operação. “É um outro mundo.”

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“Eu embarco todo mês por uns três dias para fazer palestras e observar tudo pessoalmente”, diz Clarisse

“Outro mundo” também é uma ótima descrição para os funcionários que trabalham no mar. Longe da família, eles agradecem ao avanço da tecnologia, que tornou possível chamadas de vídeo, mensagens e internet à vontade. “Quando eu comecei, não tínhamos nem internet. Existiam as estações costeiras, onde era possível fazer chamadas pelo rádio… Só que todo mundo que estivesse naquela frequência ouvia o que você falava. Não tinha privacidade”, relembra Carla, que hoje tem contato diário com seus familiares.

Trata-se de um setor em evolução – seja em tecnologia, diversidade ou recursos humanos – e todas essas recentes mudanças têm afetado as pessoas que exploram a área para viver. Carla revela que sempre teve um objetivo, mas nunca o enxergou com imediatismo. “Quando você entra em uma carreira, espera ascender um dia. Mas eu nunca tive pressa para isso”, conta. Em meio a tantas provações, experiências e estudos, Carla e Clarisse quebraram barreiras com tempo e competência. E cresceram como inspiração para pessoas dentro e fora da sonda de perfuração que comandam.