
SÃO PAULO – Com a expectativa de crescimento nas vendas de final de ano, o varejo no Brasil passa pelo seu melhor momento desde a recessão e entra em 2020 com o pé direito.
O bom desempenho alcançado em 2019, sobretudo no segundo semestre, deu fôlego ao setor que faturou 18,1% a mais na Black Friday em relação a 2018.
A alta é influenciada por fatores macroeconômicos que impactam diretamente na renda, como a liberação dos recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) – que, conforme o mercado, ajudará a economia brasileira a ter o melhor fim de ano desde 2014 – e a queda, ainda que suave, do índice de desemprego, fechado em 11,2% no trimestre de setembro a novembro – ocasionada pelo aumento da informalidade.
Em meio ao cenário, o Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar) projeta a tendência de vendas para dezembro no varejo ampliado em 96,85, no índice com base fixa até 100 – um aumento de 3,74 pontos percentuais em relação ao mesmo mês do ano passado.
Para o início de 2020, o instituto estima um variação ainda maior, de (+0,38) a cada mês nas vendas dos dois primeiros meses do ano, (97,23) janeiro e (97,61) fevereiro.
Os números positivos, entretanto, ainda são vistos com receio por uma parte do setor – indicando que as projeções de crescimento não atingem o varejo como todo.
A alta de 9,5% em vendas dos shoppings no Natal divulgada pela Associação Brasileira de Lojistas de Shoppings (Alshop) é contestada pela Associação Brasileira dos Lojistas Satélites (Ablos) com o argumento de que as vendas natalinas de 2019 foram iguais ou piores em comparação a 2018 para 70% dos pequenos e médios lojistas associados.
Mesmo com as polêmicas, o contexto atual, de acordo com Nuno Fouto, diretor de pesquisas do Ibevar mostra uma retomada sustentável do setor diante à retração vivida nos últimos períodos.
Fouto ressalta que o ânimo no período é consequência da melhoria das condições macroeconômicas que o mercado esperava para criar maiores expectativas.
“Quando existe uma base sólida que melhora as condições de renda podemos apostar no aumento efetivo de venda, que é o que parece acontecer no momento. De maneira geral, o consumo é o primeiro termômetro que indica essa melhora e, com esse sinal positivo, o que deve aumentar inicialmente é o faturamento das empresas de varejo mais estruturadas”, afirma.
Para Luiz Guilherme Dias, CEO da Sabe Invest, embora o mercado vislumbre uma expectativa de crescimento, as medidas atuais adotadas para estimular o consumo não são o suficiente para manter as vendas altas.
“A gente não consegue enxergar que a economia do ano que vem seja fortemente influenciada pelo varejo. Das 27 companhias listadas, 10 apresentaram prejuízos no último balanço”, informa.
O que esperar?
O setor varejista possui algumas das empresas de maior valorização do Ibovespa.
De acordo com relatório elaborado pela XP, o cenário para 2020 é de otimismo, mas nem todas as empresas vão se beneficiar da recuperação do consumo.
As varejistas dos setores de duráveis e vestuário, segundo os analistas, são as que possuem maior probabilidade de apresentar crescimento de vendas acima da média do setor nos próximos anos. Nesse cenário, Lojas Renner (LREN3) e Via Varejo (VVAR3) se destacam.
“Ambas as empresas são líderes em seus respectivos campos de atuação (duráveis e vestuário), com fortes vantagens competitivas (valor da marca, oferta de crédito, escala e produto – principalmente para a Renner) em segmentos do varejo com maior demanda reprimida”, pontuam analistas da XP em relatório.
No curto prazo, a Via Varejo se beneficia, pois o mercado de ações do país tem um caráter muito mais especulativo, de acordo com Dias. Mesmo apresentando o maior prejuízo nos primeiros nove meses do ano (R$579 milhões), os papéis da varejista, dona de Casas Bahia, Extra.com e Ponto Frio, seguiu tendo o maior desempenho do Ibovespa no mesmo período: 158,31%.
“A visão imediatista numa guerra de braço com uma análise a longo prazo sempre ganha, porque no longo prazo percebe-se as influências das sazonalidades, as correções das distorções de mercado e assim se consegue identificar quem possui crescimento consistente, ou seja, quem desempenha uma boa gestão”, explica o especialista da Sabe.