Pertences pessoais deixados para trás conferem clima fantasmagórico ao seringal (Foto: Avener Prado/Repórter Brasil)

Seja um pequeno ou grande proprietário de terra, todos os ocupantes do São Domingos  têm o espírito de pecuarista. Diferente de outras regiões de conflito fundiário conflagrado na Amazônia, lá não há movimentos sociais organizados, nem uma dimensão política de luta pela terra. 

Alguns dependem até do Bolsa-Família, mas reivindicam áreas grandes, de 100, 200, 300 hectares. Para dez entre dez, a glória suprema seria criar boi. “É o gado que tira o homem da miséria”, diz Agrecino de Souza, radialista e ex-vereador de Acrelândia, que nos guiou em nossa segunda passagem pelo seringal. 

“É o gado que tira o homem da miséria”, diz Agrecino de Souza, radialista e ex-vereador de Acrelândia

Em comum, também, há a concepção de que a floresta é um obstáculo para conquistar essa vitória. E se, para os grandes proprietários da região, por menor que seja a fiscalização, há algo a perder, a insegurança fundiária vivida diariamente por esses pequenos posseiros os faz relevar completamente a legislação ambiental. Sem terra regularizada, não há nada a perder. 

O cenário pós-apocalíptico da entrada de Nova Califórnia é uma amostra do futuro que nos espera se o ritmo de destruição da Amazônia for mantido (Foto: Avener Prado/Repórter Brasil)

“Aqui nós não derruba castanheira, nós só derruba cumaru de bola”, brinca um deles, ironizando a lei que proíbe expressamente a derrubada da castanheira. Cumaru de bola é o nome inventado por eles, jocosamente, para despistar sobre o fato deles derrubarem a árvore protegida. O efeito desse raciocínio é visível no seringal. Muitos vivem da madeira, ainda que sonhem com o gado. 

A morte da floresta

Ainda que moradores da região sonhem em se tornar pecuaristas, o distrito mais próximo do seringal é uma prova do que movimenta, hoje, a economia local. Ao entrarmos em Nova Califórnia, pertencente a Porto Velho, Rondônia, o que se vê é um futuro distópico. Serrarias dos dois lados da estrada; uma oficina mecânica com carcaças de máquinas utilizadas no desmate, outras sendo consertadas na rua principal. Ao fundo, um imenso forno de outra serraria.

Alguns quilômetros ramal adentro, mais um grande empreendimento de beneficiamento de madeira, a Madeireira São Pedro. Um empresário local do ramo garante que a empresa pertence, de fato, a Chaules Volban Pozzebon. Trata-se do homem considerado o maior desmatador do Brasil. Preso em 2019, pela Operação Deforest da Polícia Federal, ele possui 120 madeireiras em toda a região Norte, seja em nome próprio, seja no de laranjas.

Como grande parte da Amazônia, o seringal também queimou ferozmente e contribui para os céus escuros em pleno dia no Sudeste (Foto: Avener Prado/Repórter Brasil)

No ramal que conecta Nova Califórnia ao São Domingos, embora sejam claros diversos níveis de agressões à floresta, há poucas áreas de corte raso. Ao chegar na entrada do seringal, abre-se uma clareira, com apenas pequenos retalhos de floresta primária. Quase toda a madeira de valor já se foi. Restam algumas majestosas sumaúmas, madeira de segunda para eles, espécies menores. E pasto. 

Os parcos estoques de madeira-de-lei remanescentes em seus lotes são vistos como moeda corrente. Em junho, quando estivemos lá pela primeira vez, os posseiros fizeram uma vaquinha para pagar a diária de aluguel de uma motoniveladora, o combustível e a remuneração do operador da máquina. Alguns entraram no rateio com dinheiro. Outros, com toras.

Em uma tarde de novembro, a atmosfera defumada pelas queimadas ainda era perceptível no lote de 100 hectares de um posseiro conhecido como Carneiro. Ele derrubou a maior parte da cobertura vegetal de sua área – muito mais do que os 20% que lhe caberiam, fosse essa uma ocupação legal de terras no bioma amazônico – para plantar 40 mil pés de banana. “Ainda quero plantar mais 20 mil”, planeja. Entre o verde dos brotos de meio metro de altura, troncos e restos de floresta carbonizados.

Como os corpos do São Domingos, a floresta também carrega suas cicatrizes (Foto: Avener Prado/Repórter Brasil)

Em sua longa ficha criminal, em que também aparece a alcunha “Lobisomem”, a disposição para o trabalho de Carneiro parece estar a serviço do tráfico de drogas. Em um dos processos a que respondeu, que o levou à cadeia em flagrante, foi pego com 1,84 kg de cocaína.