Também dono de uma extensa ficha criminal, que inclui estelionato e roubo, Pádua é praticamente um fantasma, cujo paradeiro ninguém conhece. A reportagem buscou inúmeras formas de contato, mas não conseguiu localizá-lo.
Embora o nome de Pádua seja sempre lembrado como o responsável por ordenar a matança no São Domingos, há outro que parece inspirar o mesmo temor. Ou mais. O de Carlos Roberto Passos, um madeireiro que afirma atuar na legalidade e que começou a entrar na área do São Domingos em 1999.
“De 2010 para cá, já morreram bem mais de cem pessoas”, afirma Carlos Roberto Passos, madeireiro que tem terreno no seringal
“O São Domingos é uma fraude e eu posso mostrar os caminhos dessa fraude. Os 150 mil hectares já são mais de 1,5 milhão”, atesta.
Na métrica de Passos, as vultosas cifras de grilagem de terra do seringal são proporcionais à contagem de mortos. “Eu falo pra você, sem dúvida: de 2010 pra cá, já morreram bem mais de cem pessoas”, diz.

Impressionante, também, é outro número: o de atentados que Passos conta ter sofrido. Em junho de 2019, eram 10. No início de dezembro, 15. Tanto que sua forma de garantir a segurança mudou entre uma data e outra. Da primeira vez que conversamos, em sua casa em Rio Branco, um vigia guardava a residência do lado de fora. Quando voltamos, a segurança estava na própria cintura de Passos.
Ele presta serviços de extração de madeira. Conhece o ofício como ninguém, do maquinário ao funcionamento dos planos de manejo, às próprias árvores. “Já fiz muita extração ilegal, mas agora não mais”, garante. Na segunda vez em que conversamos, me mostra um vídeo no celular. Seu filho mais velho, na boleia de um caminhão, ouvindo música romântica, de madrugada, “puxando madeira”. Ele se emociona. “Esse é o nosso sonho. Só isso.”
A mãe de todos os crimes

O seringal São Domingos é o balão de ensaio perfeito para diversos crimes. Mas a mãe de todos é a grilagem de terras. A absoluta falta de informações confiáveis sobre a quem pertencem, de fato, praticamente todos os lotes por ali torna possível sua apropriação ilegal, seja pelo uso da força, seja pela documentação criativa. No São Domingos, prevalecem os dois.
O seringal São Domingos é o balão de ensaio perfeito para diversos crimes. Mas a mãe de todos é a grilagem de terras.
Joel Bogo, procurador do Ministério Público Federal de Rio Branco, afirma que a grilagem se escora em um cálculo simples. “É uma conta de risco versus retorno”, diz. Terras griladas são muito mais baratas do que o valor de mercado. Se uma operação dá certo, o lucro do infrator é enorme. “Eles invadem novas áreas esperando que os marcos de regularização sejam flexibilizados”, completa.

E, muitas vezes, os marcos são flexibilizados e os ladrões de terra terminam se dando bem – com o apoio do governo. Os grileiros de Lábrea estão prestes a ter um retorno e tanto por conta Medida Provisória 910, editada pelo governo do presidente Jair Bolsonaro em dezembro de 2019, que permite que áreas públicas desmatadas até dezembro de 2018 sejam regularizadas. “Essa medida premia quem ocupou e desmatou, quando deveríamos estar fazendo o contrário”, afirma Brenda Brito, doutora em Ciência do Direito pela Universidade de Stanford e pesquisadora do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia).
No caso específico do São Domingos, um outro estímulo a quem ocupou irregularmente e pela força, degradando a floresta, também pode estar a caminho. A Floresta Nacional do Iquiri foi incluída pelo governo no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) e pode ser concedida à iniciativa privada para atividades como a extração de madeira. A área tem 1,4 milhão de hectares, maior que Montenegro, país do Leste Europeu.