O boato chegou a Acrelândia, onde ficam vários dos posseiros durante a semana, por volta das 15h. A polícia do Acre, mais próxima, não podia cruzar o limite do estado para resgatar o corpo no Amazonas. E a polícia do Amazonas não foi, por conta da distância. Coube a Kailon, filho de Nemes, e a um cortejo de posseiros ir buscar o corpo. Só conseguiram chegar ao seringal na tarde do domingo. Nemes já estava em decomposição e escurecido pelo fogo que destruiu a casa. Ao lado dele, cartuchos de munição .38 e .22.
A execução de Nemes gerou um inquérito da Polícia Federal. Segundo o órgão, a investigação está em andamento e, por isso, não podem ser divulgadas maiores informações. Sua morte foi uma das 32 que aconteceram no campo em 2019, segundo relatório recém-divulgado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), que aponta aumento de 14% na violência a pequenos agricultores, indígenas e quilombolas no país.
Reconstituindo a narrativa do assassinato de Nemes a partir dos depoimentos dos posseiros, vêm à tona outras mortes de pessoas que se envolveram com terras no São Domingos. Primeiro, a do vereador de Porto Velho, Joaquim Vilela, o Pitico, em 2017. Depois a de seu irmão Gabriel, em 2018. Fora os que foram alvo, mas sobreviveram.

O paulista Luiz Poklen, de 65 anos, é um deles. Para ele, a contagem de vítimas, de 2015 até aqui, não fica abaixo de 60 mortos e feridos. Em 1º de agosto de 2017, ele mesmo entrou para essa estatística. Estava de moto, com o filho, em um dos ramais que cortam o seringal, quando tomou dois tiros de espingarda “chumbeira”, um atrás do ombro, outro na boca. O chumbo que perfurou sua boca foi parar na costela do filho. “Só não morri porque estava armado”, diz. Ele alega que pistoleiros estiveram no hospital para terminar o serviço, mas os policiais de plantão impediram a execução.
Sem santo, sem vilão
Nas conversas dos posseiros do São Domingos, quase tão frequentes como as mortes são as menções a três nomes: Volnei Roberto de Pádua, Valmor Dilli e Carlos Roberto Passos.
Valmor Dilli é um grande empresário do setor madeireiro em Nova Califórnia, cidade a cerca de 70 quilômetros do seringal. Só no distrito, ele tem duas serrarias e uma beneficiadora. Exporta boa parte de sua produção para a Europa. Além de extrair madeira na região, sua trajetória converge para o São Domingos, pois ele comprou, em 2018, pouco mais de 2.300 hectares de terra dentro do seringal.
Como todos os que se envolvem com terrenos no São Domingos, não demorou muito para que Dilli mesmo sofresse um atentado. Na manhã de terça-feira, 23 de abril de 2019, contou oito tiros disparados em sua direção quando dirigia sua caminhonete. Chegou a ser atingido, mas sem maior gravidade e foi liberado do hospital no mesmo dia.

“Foi um ataque premeditado, com tudo montado. Logo depois, já tinha notícia”, conta. Uma dessas notícias, veiculada num jornal digital local chamado ACJornal.com, estampava na manchete que Dilli seria o mandante do ataque que matou Nemes. “Me jogaram contra os posseiros, mas isso já se esclareceu. Eu não tenho nada contra eles”, disse em entrevista à Repórter Brasil. Atualmente, os posseiros alegam que Dilli os ajuda na abertura e manutenção das estradas no seringal.
Já Pádua é o grande responsável pela presença da maioria das mais de 100 famílias que reivindicavam lotes dentro do São Domingos – antes da fuga coletiva. Foi ele quem, a partir de uma escritura fria, negociou – e em alguns casos, até doou – as terras aos posseiros que viviam na área. Era com Pádua que eles faziam contratos simples de compra e venda, sem qualquer valor jurídico para fins de registro de imóveis.
Para os posseiros, é Pádua quem está por trás dos atentados e mortes dos últimos anos. Na visão deles, em entrevistas concedidas em junho, Pádua estaria querendo expulsá-los, agora que muitos já fizeram benfeitorias em suas terras, com a intenção de atrair um novo grupo e revender os mesmos lotes grilados.