Seis meses depois, na nossa segunda visita, não havia quase ninguém. As casas pareciam ter sido abandonadas às pressas: louça suja se acumulava nas pias, pertences pessoais ficaram para trás. Um sinal de que a fuga coletiva tinha sido repentina, como que motivada por força maior.

Um dos únicos que ali restou é Ivani de Souza Carmo, o Louro. Não por coincidência. Ele possui algo que ninguém mais tem naquelas bandas: um documento legítimo da terra. Ao redor do barracão de madeira onde vive, estão remanescentes do tempo em que ali era, de fato, um seringal, no auge do ciclo da borracha: um cemitério e restos dos trilhos por onde rolavam os carrinhos com o látex retirado das seringueiras por “soldados” da borracha, como o pai de Louro.
Sua família está no seringal há 64 anos – ele tem 53. Como posseiro, ele conseguiu uma certidão do programa Terra Legal, que reconhece a ocupação histórica da terra e o habilita a acessar linhas de empréstimos bancários. Neste que é um dos cantos mais sangrentos da Amazônia, o papel serve como um colete à prova de balas. “Aqui nunca ninguém mexeu comigo”, comenta. É dos únicos.
Discreto, Louro não fala abertamente sobre a fuga em massa. Pessoas que entrevistamos em Lábrea, no entanto, garantem que os ex-moradores do seringal fugiram da violência.

Enquanto conversávamos com Louro, que vive de algumas lavouras, da extração de castanhas e pensa em criar gado no futuro, homens com peças de fardamento militar caçavam na outra margem do rio, portando espingardas e uma escopeta. Na margem oposta, está a mata cerrada da Floresta Nacional do Iquiri. Não muito longe dali, há duas outras áreas protegidas, a Reserva Extrativista do Ituxi e a Terra Indígena Kaxarari. Como sempre no seringal, uma morte recente dominou a conversa com os caçadores.
Duas semanas antes, um homem chamado Denis havia sido encontrado morto. Os grupos de Whatsapp dos posseiros fervilharam com fotos do corpo, assumindo se tratar de mais um assassinato. O laudo da necropsia, feita na cidade mais próxima, Acrelândia, no Acre, dirimiu a tensão: a causa oficial da morte foi meningite.
“Eu que encontrei o corpo. Tinha marca de bala no rosto e sinais de tortura. Como alguém que tá bem num dia pode morrer de meningite no outro? Foi morte matada”, afirma um caçador sobre um dos recentes assassinatos do Seringal São Domingos.

Mas os caçadores não se convenceram. “Eu que encontrei o corpo. Tinha marca de bala no rosto e sinais de tortura”, garante o homem que não quis se identificar. “Como alguém que tá bem num dia pode morrer de meningite no outro? Foi morte matada”, atesta.
Esse será apenas mais um dos incontáveis assassinatos não explicados no Seringal São Domingos.
A contagem de corpos
Foi por um pedaço de terra do seringal que o mineiro Nemes Machado de Oliveira foi assassinado, em março de 2019. E foi esse o crime que nos levou até lá pela primeira vez.
Numa manhã de sábado, dia 30 de março, seis pistoleiros em três motos, todos armados, invadiram o seringal. Morador do primeiro lote, logo na entrada, Pedro Maciel, paranaense de Terra Roxa, foi o primeiro a ser abordado. Dois pistoleiros ficaram com ele. “Mandaram eu pegar meus documentos, porque iam queimar minha casa”, conta por entre os escombros do barraco.

De lá, os outros pistoleiros seguiram para a propriedade de Nemes. Era cedo, ele tinha tratado dos bichos e estava tomando café. Não teve tempo de subir as escadas para se esconder dos jagunços dentro de casa. Foi alvejado nas costas e caiu próximo aos degraus. Morreu por volta das 7h. Sua casa também foi queimada.