Iniciativa surge em um momento em que a guerra civil, que já dura quase três anos, mergulha o país em uma crise que, segundo a ONU, ‘está saindo do controle’

O Conselho de Defesa do Sudão, aliado ao Exército, deve se reunir nesta terça-feira para avaliar uma proposta de cessar-fogo apresentada pelos Estados Unidos, em meio à devastação causada pela tomada da cidade de El Fasher — último reduto dos militares sudaneses na capital Darfur — pelas Forças de Apoio Rápido (FAR). A iniciativa surge em um momento em que a guerra civil, que já dura quase três anos, mergulha o país em uma crise que, segundo a ONU, “está saindo do controle”.
Veja: ‘Mataram civis feridos em suas camas’, conta enfermeira que testemunhou massacre de 400 pessoas por grupo paramilitar no Sudão
‘Parece o apocalipse’: Massacre segue no Sudão, mostram satélites, e líderes europeus reagem
O plano de Washington, apoiado pelo grupo Quad (Estados Unidos, Egito, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos), propõe uma trégua humanitária de três meses, seguida de um cessar-fogo permanente e uma transição de nove meses para um governo civil. A proposta ainda sugere afastar tanto o Exército quanto as FAR, que travam a guerra, durante o processo. O governo sudanês já havia rejeitado o plano em setembro, mas a ofensiva sangrenta das milícias em El Fasher reacendeu a pressão internacional por uma pausa imediata nos combates.
A captura da cidade, no fim de outubro, marcou um dos episódios mais brutais da guerra. Sobreviventes relataram execuções em massa, violência sexual, ataques a trabalhadores humanitários, saques e sequestros durante a ofensiva. Agora, as FAR parecem estar preparando um ataque à província central de Kordofan.
— Havia corpos de homens e mulheres por toda parte. Algumas pessoas foram atropeladas por veículos — contou Saeeda, uma mulher de 28 anos que conseguiu chegar a Tawila, 64 km a oeste de El Fasher, depois de caminhar por dias com fome e sede.
Initial plugin text
Organizações humanitárias alertam que milhares de pessoas ainda estão presas em El Fasher. Escapar da cidade envolve uma jornada árdua, marcada por homens armados e repleta de “extorsão, prisões arbitrárias, detenções, saques, violência sexual e assédio”, segundo o Conselho Norueguês para Refugiados. Muitos enfrentam fome crescente ao longo do caminho, sobrevivendo com ração para animais.
Ainda de acordo com o conselho, centenas de pessoas chegam a Tawila com ferimentos de bala e sinais de tortura. A organização Médicos Sem Fronteiras confirmou que “mais de mil refugiados chegaram a Tawila, muitos em estado de desnutrição e desidratação severa”. Na segunda-feira, a Classificação Integrada das Fases da Segurança Alimentar (IPC, na sigla em inglês), apoiada pela ONU, determinou que El Fasher está em estado de fome.
Membros das FAR em El-Fasher
AFP
Também na segunda-feira, o Tribunal Penal Internacional (TPI) expressou “preocupação sincera” com as denúncias, alertando que “os atos, se confirmados, podem constituir crimes de guerra e crimes contra a humanidade”. Já nesta terça, o secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu o fim imediato do “pesadelo de violência” e que “as partes beligerantes sentem-se agora à mesa de negociações”.
Imagens divulgadas pelo Laboratório de Investigação Humanitária da Escola de Saúde Pública de Yale indicam que os massacres continuaram dentro e ao redor de El-Fasher. O conflito já matou cerca de 400 mil pessoas, desalojou mais de 12 milhões e provocou uma das piores crises de fome do planeta.
Massacre no hospital
A enfermeira voluntária Awal Khalil trabalhava no Hospital El Fasher Sul quando a cidade sudanesa foi tomada em 26 de outubro pelas FAR, grupo paramilitar descendente das milícias Janjaweed, acusadas de genocídio há duas décadas. Ao jornal britânico Guardian, a profissional de 27 anos contou que cuidava de uma idosa em transfusão de sangue quando os milicianos invadiram o hospital e mataram mais de 400 pessoas.
Crise profunda: Secretário-geral da ONU, António Guterres, alerta sobre ‘terrível escalada’ dos confrontos no Sudão
— Tive que correr quando invadiram o hospital — afirmou Khalil, que foi baleada no pé direito e na coxa e precisou fugir da cidade, sem comida e água, caminhando por um dia inteiro. — No caminho, levaram meu celular e meu dinheiro. Fiquei sem nada.
Khalil é uma das milhares de pessoas que fugiram de El Fasher, capital da região de Darfur do Norte, após o cerco de 18 meses imposto pelas FAR. Segundo as Forças Conjuntas, coalizão de grupos armados aliados ao Exército sudanês, mais de 2 mil civis desarmados foram executados em dois dias — 26 e 27 de outubro — durante a ofensiva que consolidou o domínio paramilitar sobre a cidade.
“[O grupo paramilitar] cometeu crimes atrozes contra civis inocentes na cidade de El Fasher, onde mais de 2 mil cidadãos desarmados foram executados e mortos, principalmente mulheres, crianças e idosos”, afirma o comunicado da coalizão.
Combatentes das FAR “mataram a sangue frio todos que encontraram dentro do hospital saudita, incluindo pacientes, seus acompanhantes e qualquer outra pessoa presente nas enfermarias”, segundo a Rede de Médicos do Sudão, um grupo de profissionais de Saúde que monitora a guerra.
(Com AFP e The New York Times)
AFP
Leia matéria completa em O Globo https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2025/11/04/sudao-examina-proposta-de-tregua-dos-eua-enquanto-milhares-de-pessoas-enfrentam-fuga-e-fome-apos-massacre.ghtml
Tue, 04 Nov 2025 14:49:53 -0000

O Conselho de Defesa do Sudão, aliado ao Exército, deve se reunir nesta terça-feira para avaliar uma proposta de cessar-fogo apresentada pelos Estados Unidos, em meio à devastação causada pela tomada da cidade de El Fasher — último reduto dos militares sudaneses na capital Darfur — pelas Forças de Apoio Rápido (FAR). A iniciativa surge em um momento em que a guerra civil, que já dura quase três anos, mergulha o país em uma crise que, segundo a ONU, “está saindo do controle”.
Veja: ‘Mataram civis feridos em suas camas’, conta enfermeira que testemunhou massacre de 400 pessoas por grupo paramilitar no Sudão
‘Parece o apocalipse’: Massacre segue no Sudão, mostram satélites, e líderes europeus reagem
O plano de Washington, apoiado pelo grupo Quad (Estados Unidos, Egito, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos), propõe uma trégua humanitária de três meses, seguida de um cessar-fogo permanente e uma transição de nove meses para um governo civil. A proposta ainda sugere afastar tanto o Exército quanto as FAR, que travam a guerra, durante o processo. O governo sudanês já havia rejeitado o plano em setembro, mas a ofensiva sangrenta das milícias em El Fasher reacendeu a pressão internacional por uma pausa imediata nos combates.
A captura da cidade, no fim de outubro, marcou um dos episódios mais brutais da guerra. Sobreviventes relataram execuções em massa, violência sexual, ataques a trabalhadores humanitários, saques e sequestros durante a ofensiva. Agora, as FAR parecem estar preparando um ataque à província central de Kordofan.
— Havia corpos de homens e mulheres por toda parte. Algumas pessoas foram atropeladas por veículos — contou Saeeda, uma mulher de 28 anos que conseguiu chegar a Tawila, 64 km a oeste de El Fasher, depois de caminhar por dias com fome e sede.
Initial plugin text
Organizações humanitárias alertam que milhares de pessoas ainda estão presas em El Fasher. Escapar da cidade envolve uma jornada árdua, marcada por homens armados e repleta de “extorsão, prisões arbitrárias, detenções, saques, violência sexual e assédio”, segundo o Conselho Norueguês para Refugiados. Muitos enfrentam fome crescente ao longo do caminho, sobrevivendo com ração para animais.
Ainda de acordo com o conselho, centenas de pessoas chegam a Tawila com ferimentos de bala e sinais de tortura. A organização Médicos Sem Fronteiras confirmou que “mais de mil refugiados chegaram a Tawila, muitos em estado de desnutrição e desidratação severa”. Na segunda-feira, a Classificação Integrada das Fases da Segurança Alimentar (IPC, na sigla em inglês), apoiada pela ONU, determinou que El Fasher está em estado de fome.
Membros das FAR em El-Fasher
AFP
Também na segunda-feira, o Tribunal Penal Internacional (TPI) expressou “preocupação sincera” com as denúncias, alertando que “os atos, se confirmados, podem constituir crimes de guerra e crimes contra a humanidade”. Já nesta terça, o secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu o fim imediato do “pesadelo de violência” e que “as partes beligerantes sentem-se agora à mesa de negociações”.
Imagens divulgadas pelo Laboratório de Investigação Humanitária da Escola de Saúde Pública de Yale indicam que os massacres continuaram dentro e ao redor de El-Fasher. O conflito já matou cerca de 400 mil pessoas, desalojou mais de 12 milhões e provocou uma das piores crises de fome do planeta.
Massacre no hospital
A enfermeira voluntária Awal Khalil trabalhava no Hospital El Fasher Sul quando a cidade sudanesa foi tomada em 26 de outubro pelas FAR, grupo paramilitar descendente das milícias Janjaweed, acusadas de genocídio há duas décadas. Ao jornal britânico Guardian, a profissional de 27 anos contou que cuidava de uma idosa em transfusão de sangue quando os milicianos invadiram o hospital e mataram mais de 400 pessoas.
Crise profunda: Secretário-geral da ONU, António Guterres, alerta sobre ‘terrível escalada’ dos confrontos no Sudão
— Tive que correr quando invadiram o hospital — afirmou Khalil, que foi baleada no pé direito e na coxa e precisou fugir da cidade, sem comida e água, caminhando por um dia inteiro. — No caminho, levaram meu celular e meu dinheiro. Fiquei sem nada.
Khalil é uma das milhares de pessoas que fugiram de El Fasher, capital da região de Darfur do Norte, após o cerco de 18 meses imposto pelas FAR. Segundo as Forças Conjuntas, coalizão de grupos armados aliados ao Exército sudanês, mais de 2 mil civis desarmados foram executados em dois dias — 26 e 27 de outubro — durante a ofensiva que consolidou o domínio paramilitar sobre a cidade.
“[O grupo paramilitar] cometeu crimes atrozes contra civis inocentes na cidade de El Fasher, onde mais de 2 mil cidadãos desarmados foram executados e mortos, principalmente mulheres, crianças e idosos”, afirma o comunicado da coalizão.
Combatentes das FAR “mataram a sangue frio todos que encontraram dentro do hospital saudita, incluindo pacientes, seus acompanhantes e qualquer outra pessoa presente nas enfermarias”, segundo a Rede de Médicos do Sudão, um grupo de profissionais de Saúde que monitora a guerra.
(Com AFP e The New York Times)