Em meio à crise econômica gerada pela pandemia do coronavírus, os principais indicadores de desemprego e renda no país estão suspensos ou enfrentam problemas que podem comprometer sua divulgação. A situação é tão delicada que economistas ouvidos pela Repórter Brasil afirmam estarmos “no escuro” e diante de um possível “apagão estatístico”, que compromete inclusive a elaboração de políticas públicas para minimizar os efeitos da crise econômica.

O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), indicador de contratações e demissões de trabalhadores com carteira assinada, não tem dados publicados desde janeiro deste ano — essa informação, que era divulgada mensalmente, foi oficialmente suspensa pelo governo em 30 de março, sem data para voltar. Um portal criado pelo governo com os dados referentes ao seguro-desemprego, que também é uma referência da quantidade de profissionais com carteira assinada demitidos, não é atualizado desde dezembro de 2018. 

Por fim, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, que abrange o mercado de trabalho formal e informal e revela a taxa de desemprego oficial do país, está sendo feita por telefone devido à nova doença e enfrenta problemas de coleta de dados — o percentual de pessoas que respondem caiu de 90% para 60%. Ainda não é certo se a pesquisa atingirá o rendimento necessário para ser mantida durante a pandemia, como afirmou à Repórter Brasil Cimar Azeredo, diretor-adjunto de pesquisa do IBGE. 

“O maior problema hoje é que estamos sem bússola”, diz Manoel Pires, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV). “Houve uma piora geral de estatísticas do governo federal neste último ano e meio”, considera Pires. “Isso se deve a desinvestimento, falta de apreço pela informação e às vezes descuido”, avalia o pesquisador, citando não apenas a falta de dados referentes ao desemprego, mas também ao Bolsa Família e a ruídos nos números do balanço de pagamentos do país. 

Presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia Paulo Guedes dão coletiva de imprensa em meio à pandemia; economistas criticam falta de transparência do governo (Foto: Marcos Corrêa/PR)

“Os indicadores servem para conseguirmos entender em que magnitude a crise está afetando o emprego das pessoas e poder formular medidas de proteção e estímulo, não só agora, mas quando sairmos do isolamento também”, afirma Cosmo Donato, analista de mercado de trabalho da LCA Consultores, sobre a importância dos dados para a formulação de políticas públicas.

Neste cenário, os economistas avaliam que o governo deveria passar a divulgar semanalmente os pedidos de seguro-desemprego, a exemplo dos Estados Unidos, onde as requisições do auxílio somam 22 milhões nas últimas quatro semanas. 

No momento em que algumas cidades do país completam um mês de distanciamento social e de fechamento da maioria do comércio, o único dado que vem sendo divulgado pelo governo, em coletivas de imprensa, refere-se ao número de trabalhadores que tiveram redução de jornada e salários ou suspensão temporária do contrato, conforme permitido pela MP 936, editada em 1º de abril. Esses dados, no entanto, não refletem os trabalhadores com carteira assinada que foram demitidos ou os trabalhadores autônomos e informais que estão sem renda e sem poder trabalhar.

Ainda assim, no último dia 13, o secretário Especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, Bruno Bianco, disse que o governo passaria a divulgar o número desses trabalhadores em um site apelidado de “empregômetro”. A promessa era de que ele fosse lançado na semana passada, mas isso não aconteceu.

Até quinta-feira (16), os acordos para redução de jornadas e salários superavam 2 milhões, segundo o Ministério da Economia, e 37,8 milhões de CPFs haviam sido homologados pelo Ministério da Cidadania para receber o auxílio emergencial de R$ 600, conforme a Dataprev. Já a taxa de desemprego do primeiro trimestre tem previsão de ser divulgada pelo IBGE em 30 de abril.

Procurado, o Ministério da Economia não informou quando voltará a divulgar dados sobre os pedidos de seguro-desemprego, nem quando passará a divulgar de maneira sistemática, em sites de acesso público, os números relativos à suspensão ou redução de contratos além de informações atualizadas sobre os pedidos do auxílio emergencial.

“Em face da urgência para enfrentar a crise causada pela covid-19, a prioridade é a disponibilização tempestiva das soluções necessárias para o pagamento do benefício emergencial e do seguro-desemprego”, informou o ministério em nota.  Ainda segundo o órgão, “sem prejuízo da transparência, essas informações serão divulgadas em tempo oportuno.”