
O sociólogo Domenico De Masi foi o convidado especial para a última edição do IT ForOn Series, série de conversas produzidas pelo Grupo IT Mídia e mediadas pelo jornalista Vitor Cavalcanti. Durante o encontro, De Masi apontou temas como as consequências do neoliberalismo, vantagens do teletrabalho, globalização e o papel das lideranças corporativas para auxiliar as pessoas durante a pandemia do Covid-19.
A primeira crítica feita pelo sociólogo diz respeito ao neoliberalismo, termo que surigu com mais força a partir de 1980, cunhado especificamente nos governos de Margaret Thatcher (Reino Unido) e Ronald Reagan (Estados Unidos).
“Os economistas se enamoraram do liberalismo. Todo o mundo estava partindo da ideia de que o ser humano era egoísta, que o mercado era importante e que a economia tinha que sobressair sobre a política e que o mercado financeiro tinha que prevalecer sobre a economia.”
Na contramão, segundo De Masi, estavam os sociólogos, que acreditam que o mundo atual precisa de uma política que incentive o consumo consciente e não o ganho a todo o custo.
O sociólogo cita os trabalhos de sociólogos como Serge Latouche, realizados no sentido de alertar sobre as consequências que o estilo de vida atual pode acarretar, como destruição da camada de ozônio, perda da biodiversidade e maior número de pandemias acontecendo futuramente.
“Todas as pessoas que estavam guerreando por ouro agora têm um inimigo em comum. E toda a humanidade tem que combatê-lo simultaneamente e solidariamente contra o vírus. E também é preciso lutar contra o inimigo do aquecimento do planeta e o inimigo de uma possível guerra atômica.”
De Masi acredita que, atualmente as três principais preocupações precisam estar na saúde ( “por que, se não nada adianta”), a democracia (“a Hungria está pagando o preço de usar o álibi do coronavírus para dar poder a um ditador) e a economia (“se preocupando com ricos e pobres”)
Benefícios do trabalho remoto para a vida humana
Em Ócio Criativo, sua obra mais famosa, uma das bandeiras levantadas por De Masi está na flexibilização dos formatos de trabalho, incluindo nesta seara o trabalho remoto, adotado em massa em boa parte do globo como medida para diminuir o número de pessoas contagiadas pelo novo coronavírus (Covid-19).
Durante a entrevista, o pensador conta como essa transição ocorreu na Itália. “[Antes] a previsão para 1º de maio de 2020 era ter 570 mil pessoas em teletrabalho na Itália. Mas chegou o coronavírus e em quatro semanas mudou o que não se mudou em quarenta anos: agora, temos mais de 8 milhões de italianos que teletrabalham.”
De Masi conta que, em suas pesquisas, já detectou inúmeras vantagens no trabalho remoto, tanto para os colaboradores (menos estresse com trânsito e mais tempo em casa e no bairro) como para as empresas (aumento entre 15% e 20% de produtividade). Para o sociólogo, a questão que mais impede a adoção em massa deste formato de trabalho é “uma visão antiquada de poder”.
Porém, o profissional tem a certeza de que, no longo prazo, o modelo vai se expandir, muito em parte por conta do desenvolvimento das tecnologias digitais. Que, de acordo com De Masi, é uma grande aliada da humanidade.
“A principal vantagem da tecnologia é que dispensa o homem da necessidade de trabalhar. Essa é a grande transformação, o presente que ela deixa”, afirma
Ao lembrar que, atualmente, o ser humano vive mais e tem uma carga de trabalho menor do que nos tempos da Revolução Industrial, De Masi acredita o a revolução que ferramentas como inteligência artificial, combinadas com a flexibilização do trabalho, podem contribuir de forma decisiva para o aumento da felicidade humana.
“[no trabalho regular] o espaço é muito e o tempo é pouco. Hoje estamos em casa, onde o espaço é pouco, mas o tempo é imenso. E é neste momento que se entende a importância do ócio criativo, porque o ócio criativo é a capacidade humana que nos permite dar sentido ao tempo”, explica.
O Brasil em um mundo ‘desorientado’
Em seu livro Alfabeto da Sociedade Desorientada, De Masi explica que a sociedade tem maior dificuldade para encontrar um modelo de ética válido porque, diferente do período agrícola ou industrial, ela não se guia por uma base teórica, do capitalismo de Adam Smith ou preceitos cristãos ou muçulmanos, que antes ditavam o modo de vida da sociedade.