Nesta quarta-feira (29), a SpaceX, do bilionário Elon Musk, concluiu o lançamento de sua quarta leva de satélites de internet. Os 60 novos objetos se juntarão aos mais de 170 outros satélites da empresa que já estão em órbita terrestre. E farão parte do ousado projeto de criar uma rede de internet global, capaz de fornecer sinal para quase todo o planeta. Mas a ação empresa atraiu, novamente, críticas de astrônomos e estudiosos, que temem que o aumento de satélites leve a mais colisões espaciais e detritos flutuando em nossa órbita.

A primeira leva de foguetes foi enviada em maio de 2019 e inaugurou o projeto Starlink, que tem como objetivo suprir a demanda por internet banda larga em lugares isolados, onde a fibra ótica não é uma opção. Segundo a SpaceX, a rede completa de satélites conseguirá fornecer acesso a internet de alta velocidade em quase todo o mundo, exceto nos polos.

Para isso, os mais de 230 satélites já em órbita são apenas o começo: a empresa planeja lançar até seis mil equipamentos nos próximos anos, nas previsões mais modestas. No longo prazo, o número pode chegar em 40 mil satélites. Por enquanto, a SpaceX tem aprovação para enviar apenas 10 mil, mas já busca carta verde para outros 30 mil. 

Outros 22 lançamentos estão programados só em 2020, e possivelmente terminaremos o ano com mais de 1.500 satélites Starlink em órbita. Nesse ritmo, a empresa planeja oferecer internet para os Estados Unidos e Canadá já no meio do ano, em regime de teste.

Os números impressionam – e também assustam. Astrônomos e outros especialistas vêm criticando os planos da Space X de encher a órbita terrestre de objetos feitos por humanos. E o motivo é simples: um maior número de satélites aumenta o risco de colisões e, consequentemente, aumenta o problema da poluição espacial. Além de seu brilho prejudicar a visão do céu noturno, claro – como você pode ler nesse texto.

Mais internet, mais lixo e mais acidentes

Uma enorme nuvem de lixo espacial está circulando a Terra nesse exato momento. Segundo estimativas da Nasa, o número ultrapassa 23 mil detritos com mais de 10 centímetros, além de 500 mil objetos com tamanhos entre 1 e 10 centímetros. Eles viajam a uma velocidade entre 7 e 8 quilômetros por segundo, podendo chegar a 15 km/s em colisões com outros objetos espaciais – o que equivale a dez vezes a velocidade de uma bala.

Explosões e colisões de satélites só fazem aumentar o número de detritos espaciais. Em 2007, por exemplo, o satélite meteorológico chinês Fēngyún-1 foi intencionalmente destruído em um teste do governo chinês, resultando em mais de 10 mil detritos identificados até hoje; apenas dois anos depois, a colisão acidental entre um satélite americano e um russo também deixou um longo rastro de pedaços flutuantes. Juntos, somente esses dois episódios são responsáveis por um terço de todos os detritos identificados.

Colisões entre satélites, como a de 2009, não são tão comuns, é verdade. Mas colisões entre objetos espaciais humanos e detritos são mais frequentes. Uma vez por ano, em média, a Estação Espacial Internacional tem que mudar sua rota para evitar colidir com detritos maiores que 10 centímetro – a manobra é necessária quando há 1 possibilidade em 10 mil de isso acontecer. Mesmo que pequenos, esses objetos podem causar danos graves as naves espaciais, inutilizando completamente suas funções científicas ou comerciais e jogando os milhões de dólares investidos no equipamento no lixo. 

Agora, com o projeto Starlink (e outros parecidos, como o da Amazon), o problema pode aumentar ainda mais. Afinal, quanto mais objetos em órbita, maiores as chances de colisões aconteceram, deixando rastros de destruição para trás. A Agência Espacial Europeia (ESA) anunciou, ano passado, que uma de suas naves, um satélite climático, teve que desviar de um dos 60 primeiros satélites Starlink para evitar uma colisão que poderia ser catastrófica.