{"id":23941,"date":"2019-05-22T16:25:24","date_gmt":"2019-05-22T19:25:24","guid":{"rendered":"http:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/senadores-conhecem-projetos-e-debatem-justica-restaurativa-com-especialistas\/"},"modified":"2019-05-22T16:25:24","modified_gmt":"2019-05-22T19:25:24","slug":"senadores-conhecem-projetos-e-debatem-justica-restaurativa-com-especialistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/senadores-conhecem-projetos-e-debatem-justica-restaurativa-com-especialistas\/","title":{"rendered":"Senadores conhecem projetos e debatem Justi\u00e7a restaurativa com especialistas"},"content":{"rendered":"<p>Se os terroristas que atentaram contra o World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, tivessem se colocado no lugar das v\u00edtimas, ser\u00e1 que teriam levado a morte delas adiante?<\/p>\n<p>A pergunta foi feita h\u00e1 alguns anos por um articulista do jornal <i>The Guardian<\/i> e relembrada nesta quarta-feira (22) pelo pioneiro da linha conhecida como Justi\u00e7a Restaurativa, Terry O&#8217;Connell. Ele e outros especialistas estrangeiros dessa \u00e1rea do direito se encontraram numa audi\u00eancia promovida pela Comiss\u00e3o de Direitos Humanos (CDH). O grupo est\u00e1 em Bras\u00edlia para o Congresso Internacional de Justi\u00e7a Restaurativa, que ocorre pela primeira vez no Brasil, nesta quinta-feira (23). O tema do encontro ser\u00e1 \u201cEm busca da transforma\u00e7\u00e3o social\u201d.<\/p>\n<p>O&#8217;Connell\u00a0\u00e9 policial de carreira. Seu trabalho com v\u00edtimas e agressores influenciou grupos de Justi\u00e7a restaurativa em todo o mundo. Ele explicou aos senadores que a modalidade n\u00e3o veio para mudar o sistema penal, mas para mudar as experi\u00eancias que os indiv\u00edduos t\u00eam nesse sistema.<\/p>\n<p>A tese dele \u00e9 simples: a Justi\u00e7a precisa trabalhar de forma que as pessoas se coloquem no lugar daquelas que elas prejudicaram, para que saibam o efeito negativo que provocam na vida de algu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 dif\u00edcil ser cruel quando se sabe o que \u00e9 estar no lugar de quem sofre a agress\u00e3o. Esse \u00e9 o ponto de partida da compaix\u00e3o e a ess\u00eancia da moralidade.<\/p>\n<p>O&#8217;Connell\u00a0mostrou que, no sistema tradicional, todo crime deve ter uma pessoa julgada e condenada pelo Estado. As consequ\u00eancias do crime, por\u00e9m, afetam n\u00e3o s\u00f3 o Estado e os envolvidos diretamente, mas toda a sociedade. Por isso, \u00e9 problema de todos e cabe a todos trabalhar para evitar os crimes.<\/p>\n<p>\u2014 As pr\u00e1ticas restaurativas t\u00eam o potencial para criar novas hist\u00f3rias, e n\u00f3s precisamos desesperadamente delas.<\/p>\n<p>Uma dessas hist\u00f3rias foi contada por um colega de O&#8217;Connell,\u00a0que tamb\u00e9m far\u00e1 palestra sobre Justi\u00e7a restaurativa no congresso. Fundador do Instituto Internacional de Pr\u00e1ticas Restaurativas, Ted Wachtel narrou que, anos atr\u00e1s, quando dirigia uma escola e um programa para jovens em situa\u00e7\u00e3o de delinqu\u00eancia, houve um jogo de beisebol entre o time da casa e um time convidado. Ao final, os jogadores foram lanchar num mercado pr\u00f3ximo, e alguns itens foram roubados.<\/p>\n<p>Segundo Wachtel, sem que os adultos e professores se posicionassem, um dos jovens tomou a frente para que fosse descoberto quem era o ladr\u00e3o, e que ele devolvesse ou pagasse os produtos para que o dono do mercado n\u00e3o perdesse a confian\u00e7a no grupo inteiro. Usando a press\u00e3o dos pares, convenceu o infrator de que ou ele faria a devolu\u00e7\u00e3o, ou n\u00e3o estaria mais no time.<\/p>\n<p>Com muita relut\u00e2ncia e choro, o garoto voltou atr\u00e1s.<\/p>\n<p>\u2014 Pra mim ficou claro que aquele jovem, sem sequer ser incitado pelos adultos, tomou para si a iniciativa e a responsabilidade de um processo restaurativo espont\u00e2neo para que a escola dele fosse um lugar seguro para os alunos e respeitado pelo dono do mercadinho. N\u00e3o houve conflito, nem briga. Isso \u00e9 o que acontece quando as pessoas tomam responsabilidade e se engajam. \u00c9 uma revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o por sangue e l\u00e1grimas, mas de concilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3><strong>Brasil<\/strong><\/h3>\n<p>No Brasil, a Justi\u00e7a restaurativa foi implementada h\u00e1 cerca de 20 anos, mas s\u00f3 em 2016, ap\u00f3s recomenda\u00e7\u00f5es da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) para os pa\u00edses-membros, o Conselho Nacional de Justi\u00e7a publicou a Resolu\u00e7\u00e3o 225 com a Pol\u00edtica Nacional de Justi\u00e7a Restaurativa no Poder Judici\u00e1rio, contendo diretrizes para a implementa\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o das pr\u00e1ticas dessa modalidade de media\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Das salas do pr\u00e9dio do CNJ, em Bras\u00edlia, vamos ao Amap\u00e1. Mais precisamente, \u00e0s palafitas da comunidade do Ambr\u00f3sio, em Santana. Terra onde mulher n\u00e3o entra sozinha e desarmada. \u00c9 um dos lugares mais violentos do estado.<\/p>\n<p>Quando come\u00e7ou a visitar a comunidade, a ju\u00edza Carline Regina Nunes ouviu pessoas pr\u00f3ximas dizerem: \u201cVoc\u00ea vive bem, tem carro, tem um bom sal\u00e1rio. Por que se arriscar?\u201d.<\/p>\n<p>A resposta ela deu para os senadores:<\/p>\n<p>\u2014 Porque \u00e9\u00a0f\u00e1cil julgar e dar senten\u00e7as. Mas, no dia seguinte, as pessoas t\u00eam problemas de novo e voltam pedindo por mais justi\u00e7a. \u00c9 por isso que passei a valorizar a restaura\u00e7\u00e3o e a pacifica\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>A ju\u00edza apontou as falhas de uma Justi\u00e7a punitiva que tem superlota\u00e7\u00e3o de pres\u00eddios e in\u00fameros problemas com a popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria. Segundo ela, o sistema penal \u00e9 baseado na resolu\u00e7\u00e3o de processos, n\u00e3o na resolu\u00e7\u00e3o dos conflitos.<\/p>\n<p>Carline n\u00e3o trabalha sozinha. Entra no Ambr\u00f3sio com a promotora de Justi\u00e7a S\u00edlvia Canela. Elas conduzem c\u00edrculos de discuss\u00e3o e de engajamento da comunidade. As pessoas ouvem as hist\u00f3rias e as perspectivas umas das outras. Recebem cursos, abra\u00e7os, ouvem e conversam.<\/p>\n<p>Os resultados s\u00e3o o resgate de dezenas de meninas que praticavam automutila\u00e7\u00e3o, criminalidade em queda e uma escola que registra \u00cdndice de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica (Ideb) em ascens\u00e3o<strong>. <\/strong><\/p>\n<p>\u2014 Precisamos ter um novo olhar para o ser humano, para o conflito e para a sociedade. A Justi\u00e7a restaurativa traz o indiv\u00edduo a sua ess\u00eancia, seu eu verdadeiro, que \u00e9 bom \u2014 disse S\u00edlvia, depois de mostrar um v\u00eddeo sobre o trabalho no Amap\u00e1.<\/p>\n<p>Desembargadora do Tribunal de Justi\u00e7a da Bahia, Joanice Guimar\u00e3es defendeu a Justi\u00e7a restaurativa a partir da delegacia. Para ela, os delegados devem de pronto decidir que casos podem ser distribu\u00eddos para a Justi\u00e7a restaurativa, usando psic\u00f3logos e assistentes sociais para resolver os conflitos.<\/p>\n<p>\u2014 Justi\u00e7a restaurativa \u00e9 volunt\u00e1ria, as partes precisam querer \u2014 ressaltou.<\/p>\n<p>O psic\u00f3logo e instrutor de Justi\u00e7a restaurativa Paulo Moratelli afirmou<strong> <\/strong>que o foco \u00e9 ajudar as pessoas a reconstru\u00edrem suas vidas ultrapassando os traumas e dificuldades de quem passou por uma situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia, conflito grave e at\u00e9 crime.<\/p>\n<p>Ele defendeu o Legislativo como o espa\u00e7o certo para construir pol\u00edticas p\u00fablicas eficientes com base nas ideias e nas pr\u00e1ticas da Justi\u00e7a restaurativa, para que se torne um conjunto de pr\u00e1ticas para que as pessoas vivam mais em harmonia.<\/p>\n<h3><strong>V\u00edtimas<\/strong><\/h3>\n<p>A professora espanhola<strong> <\/strong>Virginia Domingo contou que, no \u00e2mbito penal, a Justi\u00e7a restaurativa leva \u00e0 reflex\u00e3o de como se sentia o autor, as fam\u00edlias envolvidas, a v\u00edtima e, depois de praticado o ato, a sociedade diante dele.<\/p>\n<p>\u2014 O rol de v\u00edtimas precisa desaparecer atrav\u00e9s do processo restaurativo. A v\u00edtima precisa deixar de ser v\u00edtima. Penas mais duras satisfazem os Estados, mas n\u00e3o resolvem os conflitos. Mas pessoas quebradas pelo delito devem ser transformadas \u2014 comparou.<\/p>\n<p>Virginia criticou a tese de que a Justi\u00e7a restaurativa n\u00e3o pune o agressor da maneira justa. Num contraponto, ela disse que muitas vezes a v\u00edtima, mais do que ver o sofrimento do agressor por meio da pena, precisa recuperar a rela\u00e7\u00e3o emocional e o respeito e ver o agressor tomar sua responsabilidade pelo delito.<\/p>\n<p>\u2014 Para a comunidade, [penas mais duras] parecem boas. Mas o autor pode ficar 20 anos na cadeia e, ao sair, volta a delinquir. Se mudamos o paradigma, geramos empatia entre os agressores para que eles desistam de delinquir. A Justi\u00e7a restaurativa \u00e9 preventiva, ajuda as pessoas a se reconectarem \u00e0 humanidade.<\/p>\n<p>Esse tamb\u00e9m foi o vi\u00e9s da advogada criminalista Violeta Maltos, uma professora mexicana que faz consultoria em projetos de Justi\u00e7a restaurativa. Ela contou como, em 2008, teve a mentalidade sobre seu trabalho mudada ao conhecer essa abordagem.<\/p>\n<p>\u2014 Naquele caso, a senten\u00e7a j\u00e1 tinha sido dada, o sistema tinha funcionado, a pena estava definida e n\u00e3o fazia sentido remexer no caso. Mas, ao faz\u00ea-lo, eu entendi que as senten\u00e7as resolvem o trabalho dos advogados para que o caso seja encerrado. Na verdade, por\u00e9m, nunca temos ideia do que a v\u00edtima deseja. N\u00f3s falamos e pensamos pelas v\u00edtimas, acreditando que sabemos o que elas querem.<\/p>\n<h3><strong>Senadores<\/strong><\/h3>\n<p>Presidente da audi\u00eancia, o senador Lucas Barreto (PSD-AP) declarou estar convencido da necessidade de a legisla\u00e7\u00e3o brasileira incorporar as diretrizes da Justi\u00e7a restaurativa.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma forma \u00fatil e justa de resolver conflitos, especialmente \u00e2mbito dos delitos de menor poder ofensivo e de outros crimes que, embora graves, precisam n\u00e3o apenas da resposta penal tradicional, mas de um grau maior de resolutividade social, empoderamento das v\u00edtimas e restaura\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os e valores sociais.<\/p>\n<p>Fonte: Senado Noticias Gerais<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se os terroristas que atentaram contra o World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, tivessem se colocado no lugar das v\u00edtimas, ser\u00e1 que teriam levado a morte delas adiante? 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