{"id":223058,"date":"2025-11-03T20:12:46","date_gmt":"2025-11-03T23:12:46","guid":{"rendered":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/brasilia-nao-foi-desenhada-para-todos-diz-ex-presidente-da-codeplan\/"},"modified":"2025-11-03T20:12:46","modified_gmt":"2025-11-03T23:12:46","slug":"brasilia-nao-foi-desenhada-para-todos-diz-ex-presidente-da-codeplan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/brasilia-nao-foi-desenhada-para-todos-diz-ex-presidente-da-codeplan\/","title":{"rendered":"\u201cBras\u00edlia n\u00e3o foi desenhada para todos\u201d, diz ex-presidente da Codeplan"},"content":{"rendered":"<p>A inaugura\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, h\u00e1 60 anos,\u00a0foi um marco no processo de interioriza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, que contou com um conjunto de fatores favor\u00e1veis &#8211; entre eles, a vontade pol\u00edtica de Juscelino Kubistchek apoiada na racionalidade de planejadores que conceberam e constru\u00edram a cidade.<\/p>\n<p>A hegemonia do desenvolvimentismo de JK n\u00e3o se estabeleceu sem resist\u00eancia e sem cr\u00edtica. Uma delas \u00e9 a de que a concep\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia foi falha e, apesar de idealizada como um projeto moderno, \u00e9 uma grande cidade tipicamente brasileira, que padece de problemas agravados pela desigualdade social, como a dificuldade de\u00a0acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade p\u00fablica e ao\u00a0transporte coletivo. Bras\u00edlia n\u00e3o \u00e9 uma &#8220;ilha da fantasia&#8221; em compara\u00e7\u00e3o ao Brasil.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-medio_4colunas type-image atom-align-left\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=162230:medio_4colunas {\"additionalClasses\":\"\"} --><a href=\"\/atom\/162230\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/whatsapp_image_2020-04-17_at_09.28.03.jpeg\" \/><\/a><!-- END scald=162230 --><\/div>\n<div class=\"dnd-caption-wrapper\">\n<div class=\"meta\">Diretor do Instituto de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da UnB,\u00a0L\u00facio Renn\u00f3\u00a0<!--END copyright=162230--><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Para falar desses assuntos, a <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong> entrevistou o diretor do Instituto de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), Lucio Remuzat Renn\u00f3 Junior.<\/p>\n<p>Com doutorado na Universidade de Pittsburgh (EUA) e p\u00f3s-doutorado em estudos latino-americanos no German Institute for Global and Area Studies, em Hamburgo (Alemanha), Lucio Renn\u00f3 foi presidente da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), entre 2015 e 2018, onde chefiou diversas pesquisas sobre a popula\u00e7\u00e3o e a qualidade de vida em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Leia a seguir os principais trechos da entrevista.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> O projeto de trazer a cidade para o interior do pa\u00eds \u00e9 bastante antigo, por que s\u00f3 foi se concretizar em 1960?<br \/><strong>Lucio Renn\u00f3:<\/strong> Tem muito a ver com o momento hist\u00f3rico, com a fase que o Brasil se encontrava. Era uma fase de expans\u00e3o econ\u00f4mica, de expans\u00e3o de sua presen\u00e7a no continente e como pot\u00eancia regional. O esp\u00edrito do tempo era desbravador. Era um momento p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial e de estabiliza\u00e7\u00e3o das economias da Am\u00e9rica Latina. Uma janela de oportunidades que foi aproveitada por uma lideran\u00e7a pol\u00edtica extremamente ambiciosa e pouco acomodada. Foi uma converg\u00eancia desses fatores, tamb\u00e9m aproveitados por planejadores, que mudaram em parte a geografia humana no Brasil, que tinha \u00e0 \u00e9poca a popula\u00e7\u00e3o mais concentrada na faixa litor\u00e2nea.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Juscelino Kubistchek escreveu, em um artigo publicado no ano de sua morte (1976) que somente em 1970 cessaram as ideias de retornar a capital para o Rio de Janeiro. O escritor e cartunista Mill\u00f4r Fernandes dizia que Bras\u00edlia era \u201co desnecess\u00e1rio se tornando irrevers\u00edvel\u201d. Por que a transfer\u00eancia da capital foi recebida com antipatia por alguns setores da sociedade e da pol\u00edtica?<br \/><strong>Renn\u00f3:<\/strong> Era um problema mais acentuado para as elites pol\u00edticas, culturais e econ\u00f4micas que estavam situadas no Rio de Janeiro ou que tinham o Rio como sua base. \u00c9 \u00f3bvio que enxergavam a transfer\u00eancia da capital como perda de influ\u00eancia e de peso pol\u00edtico. A resist\u00eancia tem a ver com a disputa de poder regional, com a preocupa\u00e7\u00e3o leg\u00edtima da popula\u00e7\u00e3o do Rio com a perda de status de capital e dos benef\u00edcios decorrentes. Toda mudan\u00e7a no que tange a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u00e9 acompanhada de resist\u00eancia. N\u00e3o existe mudan\u00e7a consensual quando afeta o status quo. A vinda para Bras\u00edlia interferiu tamb\u00e9m na vida pessoal de quem trabalhava na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Essas pessoas teriam que vir para um lugar pouco desenvolvido, que n\u00e3o tinha o charme do Rio de Janeiro, uma cidade muito ativa culturalmente e cheia de alternativas de lazer e entretenimento.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil: <\/strong>\u00c9 comum se ouvir que Bras\u00edlia \u00e9 uma \u201cilha da fantasia\u201d. Mas os indicadores de desigualdade socioecon\u00f4mica e problemas como os de transporte p\u00fablico, comuns em outros lugares do pa\u00eds, assinalam que n\u00e3o \u00e9 bem assim. Em quem sentido somos, ou j\u00e1 fomos, uma ilha da fantasia? Em que sentido somos uma aut\u00eantica capital do Brasil?<br \/><strong>Renn\u00f3: <\/strong>O conjunto do Distrito Federal e as adjac\u00eancias n\u00e3o t\u00eam nada de ilha da fantasia, pelo contr\u00e1rio. Por\u00e9m, se pensar exclusivamente na qualidade de vida da regi\u00e3o administrativa do Plano Piloto, Lago Sul, Lago Norte, Sudoeste e Noroeste, h\u00e1, de fato, uma situa\u00e7\u00e3o muito privilegiada. Temos, portanto, uma ilha da fantasia dentro do Distrito Federal, comparando essas \u00e1reas com outras regi\u00f5es administrativas. Esse c\u00edrculo, que corresponde ao centro da capital, \u00e9 muito afluente e \u00e9 compar\u00e1vel a pa\u00edses desenvolvidos. O DF \u00e9 caracterizado por essa concentra\u00e7\u00e3o de riqueza, de atividade econ\u00f4mica e dos melhores empregos. O outro lado da moeda mostra que somos muito desiguais. Nos c\u00edrculos que v\u00e3o se distanciando da \u00e1rea central, h\u00e1 um n\u00edvel de renda mais baixo e de qualidade de vida muito inferior. O Distrito Federal \u00e9 uma das unidades da Federa\u00e7\u00e3o mais desiguais por causa desses atributos. Se a gente coloca nessa conta a regi\u00e3o metropolitana, que fica em Goi\u00e1s e chamamos de Entorno do DF, especialmente nos munic\u00edpios ao sul e sudeste do Distrito Federal, a\u00ed a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais grave. Nas sa\u00eddas para Goi\u00e2nia, Belo Horizonte, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, h\u00e1 um adensamento populacional enorme com oferta insuficiente de servi\u00e7os, e que faz com que as pessoas que moram nesses lugares tenham que ter um movimento pendular para trabalho e para uso dos servi\u00e7os p\u00fablicos e privados. Isso torna os problemas de mobilidade e de transporte p\u00fablico ainda mais acentuados.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> A configura\u00e7\u00e3o dessa desigualdade acompanhou o processo de ocupa\u00e7\u00e3o do DF. Mas o projeto de Bras\u00edlia previa que dois ter\u00e7os da massa de imigrantes que veio para c\u00e1 construir a cidade seria absorvida no futuro, mesmo com baixa escolaridade e qualifica\u00e7\u00e3o, pela administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, pelo com\u00e9rcio local ou pela ind\u00fastria ou lavoura incipientes. O planejamento tamb\u00e9m acreditava que um ter\u00e7o retornaria \u00e0s suas regi\u00f5es de origem, de onde sa\u00edram para terem oportunidades melhores. Em sua concep\u00e7\u00e3o, Bras\u00edlia j\u00e1 era elitista?<br \/><strong>Renn\u00f3: <\/strong>Bras\u00edlia foi pensada para ser \u00fanica e exclusivamente sede de governo. Para abrigar as pessoas que viriam para c\u00e1 para trabalhar no Estado e, secundariamente, para as atividades de apoio e de sustento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 burocracia. A cidade n\u00e3o foi desenhada para todos. Tinha um setor espec\u00edfico da sociedade em mente. Nesse sentido, de um prop\u00f3sito para ser constru\u00edda, pode-se dizer que Bras\u00edlia j\u00e1 era elitista. \u00c9 poss\u00edvel dizer que houve equ\u00edvocos ou problemas na constru\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios e de simula\u00e7\u00f5es sobre como ocorreria o processo de ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio. Tudo isso foi feito prevendo que o fluxo migrat\u00f3rio n\u00e3o teria o volume que acabou tendo. Apesar de saber que um dos motivos para a transfer\u00eancia era justamente povoar uma \u00e1rea considerada deserta e diminuir a press\u00e3o populacional nas cidades litor\u00e2neas. \u00c9 meio contrassenso: planejou-se criar o fluxo migrat\u00f3rio, mas, de certa forma, n\u00e3o se esperava que esse processo tivesse tanto sucesso. A \u00e1rea metropolitana, que envolve o DF e o Entorno, tem hoje 4 milh\u00f5es de pessoas. O processo migrat\u00f3rio posterior aos anos 1960 foi muito acentuado, em especial nos anos 1980 e 1990. Isso estimulado por pol\u00edticas habitacionais e a cria\u00e7\u00e3o de novas regi\u00f5es administrativas, as antigas cidades sat\u00e9lites. N\u00e3o sei se a gente pode culpar os planejadores. O crescimento e o adensamento populacional foram muito superiores ao que era previsto. Isso gerou problemas de gest\u00e3o dos equipamentos p\u00fablicos e de qualidade dos servi\u00e7os p\u00fablicos na cidade.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Como esse adensamento repercutiu na qualidade de vida do DF?<br \/><strong>Renn\u00f3: <\/strong>Esse adensamento foi provocado pela ocupa\u00e7\u00e3o ilegal do territ\u00f3rio, com grilagem de terra. A usurpa\u00e7\u00e3o da terra p\u00fablica teve um efeito devastador na qualidade de vida em Bras\u00edlia. A grilagem aconteceu tanto para os ricos quanto para os pobres. N\u00e3o houve s\u00f3 invas\u00e3o em periferias, mas em \u00e1reas como os condom\u00ednios. Esse processo foi coordenado, n\u00e3o foi espont\u00e2neo. Tinha gente vendendo terra ilegalmente, que \u00e9 muito cara no DF. Essas pessoas cercavam \u00e1reas p\u00fablicas e vendiam. N\u00e3o vamos romantizar a disputa de espa\u00e7o na periferia. Ela aconteceu de maneira criminosa como se deu em \u00e1reas que foram ocupadas pelas elites. Esses atos foram prejudiciais para a cidade como um todo e ben\u00e9fico apenas para os criminosos que fizeram grilagem de terra. Durante muito tempo, o Estado foi conivente com esses processos. Fez vista grossa. Hoje, a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 consolidada e n\u00e3o t\u00eam mais revers\u00e3o. Essas \u00e1reas afetam a sobrecarga que comprometem a oferta de servi\u00e7os p\u00fablicos. Na sa\u00fade, isso \u00e9 um problema gritante. Na mobilidade, tamb\u00e9m \u00e9 um problema enorme. Isso n\u00e3o foi culpa dos planejadores da cidade, mas de gest\u00f5es posteriores que adotaram pol\u00edticas que estimularam a oferta de habita\u00e7\u00e3o descontrolada e foram tolerantes com elementos de corrup\u00e7\u00e3o associados com os processos de especula\u00e7\u00e3o e grilagem que ocorreram ao longo da nossa trajet\u00f3ria. Temos que ter isso em mente para entender os desafios que a cidade tem hoje.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> O senhor \u00e9 um pesquisador acad\u00eamico e durante algum tempo esteve \u00e0 frente da Codeplan. O que mais o surpreendeu positivamente e negativamente sobre a cidade nesse per\u00edodo que foi gestor<br \/><strong>Renn\u00f3: <\/strong>O per\u00edodo que eu estive \u00e0 frente da Codeplan coincidiu com a mais grave crise econ\u00f4mica do pa\u00eds. Os anos de 2015, 2016 e 2017 foram muito dif\u00edceis com aumento de desemprego, de perda de renda das fam\u00edlias. Um per\u00edodo ruim para a popula\u00e7\u00e3o do DF e para toda a popula\u00e7\u00e3o brasileira. O lado ruim foi a magnitude da crise sobre as pessoas mais pobres, que sofreram perda de renda e, assim, aumentaram as desigualdades. No final quem paga a conta s\u00e3o os pobres. Isso n\u00e3o tem a ver s\u00f3 com Bras\u00edlia, as crises econ\u00f4micas transformam as pessoas que s\u00e3o pobres em pessoas miser\u00e1veis e sem condi\u00e7\u00f5es de comer. Por outro lado, aprendi coisas interessantes e positivas sobre o Distrito Federal. Uma delas, que \u00e9 o outro lado da moeda, \u00e9 que por causa do alto poder aquisitivo h\u00e1 grau de prosperidade perene que atenua as crises. Consumimos em n\u00edvel elevado. Alguns setores da economia local tiveram resultados positivos de crescimento durante aquela crise econ\u00f4mica. Por exemplo, o setor de sa\u00fade privada, que \u00e9 importante dado o envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o. As \u00e1reas de entretimento, lazer e cultura tamb\u00e9m s\u00e3o muito pujantes no DF. Tudo isso est\u00e1 relacionado \u00e0 nossa capacidade de consumo. Isso nos d\u00e1 alento no sentido de tentar ampliar a diversidade da nossa economia, o que \u00e9 um desafio que precisa ser superado.<\/p>\n<p>Infoeconomico.com.br<br \/>\nFonte: EBC ECONOMIA<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Infoeconomico.com.br &#8211; Seu Portal de Not\u00edcias<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A inaugura\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, h\u00e1 60 anos,\u00a0foi um marco no processo de interioriza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, que contou com um conjunto de fatores favor\u00e1veis &#8211; entre eles, a vontade pol\u00edtica de Juscelino Kubistchek apoiada na racionalidade de planejadores que conceberam e constru\u00edram a cidade. 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