{"id":222749,"date":"2025-11-03T20:12:32","date_gmt":"2025-11-03T23:12:32","guid":{"rendered":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/assassinatos-desmatamento-e-roubo-de-terras-um-laboratorio-do-crime-no-meio-da-amazonia\/"},"modified":"2025-11-03T20:12:32","modified_gmt":"2025-11-03T23:12:32","slug":"assassinatos-desmatamento-e-roubo-de-terras-um-laboratorio-do-crime-no-meio-da-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/assassinatos-desmatamento-e-roubo-de-terras-um-laboratorio-do-crime-no-meio-da-amazonia\/","title":{"rendered":"Assassinatos, desmatamento e roubo de terras: um laborat\u00f3rio do crime no meio da Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p>\u201cAqui n\u00e3o tem nenhum santo\u201d. Moradores de L\u00e1brea (AM) de diferentes perfis e classes sociais \u2013 grandes fazendeiros, pequenos agricultores, descendentes de soldados da borracha e madeireiros ilegais \u2013 repetem a frase numa tentativa de explicar por que o munic\u00edpio, rodeado por \u00e1reas protegidas de floresta, \u00e9 um dos mais violentos e desmatados da Amaz\u00f4nia. Naquela fronteira entre os estados do Amazonas, Acre e Rond\u00f4nia, n\u00e3o h\u00e1 dados oficiais sobre a viol\u00eancia, j\u00e1 que s\u00e3o poucas as autoridades que chegam ali \u2013 seja para fiscalizar crimes ambientais ou para investigar os frequentes assassinatos. J\u00e1 os sat\u00e9lites monitoram com precis\u00e3o a destrui\u00e7\u00e3o ambiental na regi\u00e3o distante de qualquer centro urbano. E o que v\u00eaem \u00e9 alarmante.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/26-de-novembro-de-2019-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-44682\" \/><figcaption>S\u00f3 h\u00e1 um consenso entre os grandes e pequenos que travam uma batalha sangrenta pela terra no Seringal S\u00e3o Domingos, no sul do Amazonas: o ch\u00e3o \u00e9 o futuro da floresta (Foto: Avener Prado\/Rep\u00f3rter Brasil) <\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>L\u00e1brea \u00e9 o segundo munic\u00edpio de todo o bioma amaz\u00f4nico entre os mais cr\u00edticos para a destrui\u00e7\u00e3o da floresta. No ano passado, foi a quinta cidade da Amaz\u00f4nia Legal em incremento do desmatamento. N\u00e3o por acaso, esteve na mesma posi\u00e7\u00e3o do ranking das cidades que mais registraram queimadas entre janeiro e julho de 2019, segundo dados coincidentes do Ipam, no Inpe e do Imazon. Tanto os focos de inc\u00eandios como os de desmatamento concentraram-se no sul do munic\u00edpio, onde fica o Seringal S\u00e3o Domingos.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Ao percorrer os caminhos barrentos do seringal, \u00e9 poss\u00edvel visualizar todas as inst\u00e2ncias do processo que leva a floresta \u00e0 morte. Na mata aparentemente cerrada, pequenas clareiras se insinuam, vest\u00edgios da passagem das <em>skids<\/em>, m\u00e1quinas respons\u00e1veis por levar as \u00e1rvores ao ch\u00e3o. Esses pequenos corredores levam ao cora\u00e7\u00e3o da floresta \u2013 e para longe do escrut\u00ednio de uma eventual fiscaliza\u00e7\u00e3o \u2013 onde o corte seletivo de madeira pode acontecer livremente.&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/24-de-novembro-de-2019.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-44686\" \/><figcaption> Iconografia comum no Seringal S\u00e3o Domingos em que diagramas policiais identificam perfura\u00e7\u00f5es por tiros (Foto: Avener Prado\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>L\u00e1, as toras de valor ficar\u00e3o estocadas por um bom tempo, at\u00e9 que sequem. Na calada da noite \u2013 ou em plena luz do dia mesmo \u2013, elas ser\u00e3o retiradas e levadas pelos caminh\u00f5es-julieta \u00e0s dezenas de serrarias pr\u00f3ximas para beneficiamento e destina\u00e7\u00e3o ao mercado brasileiro e estrangeiro. Depois, v\u00eam as queimadas que apagam o c\u00e9u e escurecem a chuva de cidades a milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. E, por fim, o gado, o ponto final da senten\u00e7a de morte da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>A <strong>Rep\u00f3rter Brasil<\/strong> esteve duas vezes em L\u00e1brea no ano passado \u2013 em junho e em novembro \u2013, para conhecer o subterr\u00e2neo da destrui\u00e7\u00e3o da floresta. Mas n\u00e3o s\u00f3. Tamb\u00e9m as consequ\u00eancias nefastas que o desmatamento ilegal imprime na vida das pessoas. A regi\u00e3o tem quase todos os&nbsp; mesmos elementos que outras \u00e1reas amaz\u00f4nicas desmatadas tamb\u00e9m t\u00eam: extra\u00e7\u00e3o ilegal de madeira, queimadas, cria\u00e7\u00e3o de gado, pouca ou nenhuma fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental, assassinatos \u201csem mandantes\u201d, conflito por terras e aus\u00eancia do Estado.&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/26-de-novembro-de-2019-4.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-44690\" \/><figcaption> A mata fechada, ao chegar ao S\u00e3o Domingos, vira um clar\u00e3o (Foto: Avener Prado\/Rep\u00f3rter Brasil) <\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Por\u00e9m,&nbsp; no Seringal S\u00e3o Domingos, todo o sistema de destrui\u00e7\u00e3o da selva \u2013 e a sua consequente viol\u00eancia \u2013&nbsp; parece elevado \u00e0 mil\u00e9sima pot\u00eancia. A combina\u00e7\u00e3o entre localiza\u00e7\u00e3o remota, aus\u00eancia de autoridades e completo caos fundi\u00e1rio tornam esse peda\u00e7o de terra um laborat\u00f3rio do crime. Ali, essa f\u00f3rmula catalisa a grilagem, o desmatamento, a extra\u00e7\u00e3o ilegal de madeira. E a morte. Em doses cavalares.&nbsp;<\/p>\n<p>Se os interesses econ\u00f4micos imprimem um caminho linear e \u2018rent\u00e1vel\u2019 para destruir a Amaz\u00f4nia, o processo que destr\u00f3i vidas \u00e9 mais complexo. Trata-se de uma Macondo invertida, um lugar governado por um surrealismo tr\u00e1gico, que substitui o clich\u00ea da Amaz\u00f4nia sem lei pelo da Amaz\u00f4nia de uma s\u00f3 lei: a entropia.&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/26-de-novembro-de-2019-2.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-44688\" \/><figcaption> Caminh\u00e3o com toras de madeira extra\u00eddas ilegalmente transita no Seringal S\u00e3o Domingos (Foto: Avener Prado\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<h1>Terra abandonada&nbsp;<br \/><\/h1>\n<p>Em junho de 2019, quando estivemos pela primeira vez no Seringal S\u00e3o Domingos, as fam\u00edlias que vivem espalhadas na gigantesca \u00e1rea de 150 mil hectares levavam suas vidas com aparente \u2018normalidade\u2019, dentro do poss\u00edvel nesta terra onde ningu\u00e9m \u00e9 santo.&nbsp;<br \/><!--nextpage--><\/p>\n<p>Seis meses depois, na nossa segunda visita, n\u00e3o havia quase ningu\u00e9m. As casas pareciam ter sido abandonadas \u00e0s pressas: lou\u00e7a suja se acumulava nas pias, pertences pessoais ficaram para tr\u00e1s. Um sinal de que a fuga coletiva tinha sido repentina, como que motivada por for\u00e7a maior.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/26-de-novembro-de-2019.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-44693\" \/><figcaption> O capim toma conta do lote onde Nemes Machado foi morto (Foto: Avener Prado\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Um dos \u00fanicos que ali restou \u00e9 Ivani de Souza Carmo, o Louro. N\u00e3o por coincid\u00eancia. Ele possui algo que ningu\u00e9m mais tem naquelas bandas: um documento leg\u00edtimo da terra. Ao redor do barrac\u00e3o de madeira onde vive, est\u00e3o remanescentes do tempo em que ali era, de fato, um seringal, no auge do ciclo da borracha: um cemit\u00e9rio e restos dos trilhos por onde rolavam os carrinhos com o l\u00e1tex retirado das seringueiras por \u201csoldados\u201d da borracha, como o pai de Louro.<\/p>\n<p>Sua fam\u00edlia est\u00e1 no seringal h\u00e1 64 anos \u2013 ele tem 53. Como posseiro, ele conseguiu uma certid\u00e3o do programa Terra Legal, que reconhece a ocupa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da terra e o habilita a acessar linhas de empr\u00e9stimos banc\u00e1rios. Neste que \u00e9 um dos cantos mais sangrentos da Amaz\u00f4nia, o papel serve como um colete \u00e0 prova de balas. \u201cAqui nunca ningu\u00e9m mexeu comigo\u201d, comenta. \u00c9 dos \u00fanicos.<\/p>\n<p>Discreto, Louro n\u00e3o fala abertamente sobre a fuga em massa. Pessoas que entrevistamos em L\u00e1brea, no entanto, garantem que os ex-moradores do seringal fugiram da viol\u00eancia.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/26-de-novembro-de-2019-5.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-44691\" \/><figcaption>Ivani de Souza Carmo, o Louro, filho de soldado da borracha, \u00e9 dos \u00fanicos a possuir um documento leg\u00edtimo de terra no seringal (Foto: Avener Prado\/Rep\u00f3rter Brasil) <br \/> <\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Enquanto convers\u00e1vamos com Louro, que vive de algumas lavouras, da extra\u00e7\u00e3o de castanhas e pensa em criar gado no futuro, homens com pe\u00e7as de fardamento militar ca\u00e7avam na outra margem do rio, portando espingardas e uma escopeta. Na margem oposta, est\u00e1 a mata cerrada da Floresta Nacional do Iquiri. N\u00e3o muito longe dali, h\u00e1 duas outras \u00e1reas protegidas, a Reserva Extrativista do Ituxi e a Terra Ind\u00edgena Kaxarari. Como sempre no seringal, uma morte recente dominou a conversa com os ca\u00e7adores.<\/p>\n<p>Duas semanas antes, um homem chamado Denis havia sido encontrado morto. Os grupos de Whatsapp dos posseiros fervilharam com fotos do corpo, assumindo se tratar de mais um assassinato. O laudo da necropsia, feita na&nbsp; cidade mais pr\u00f3xima, Acrel\u00e2ndia, no Acre, dirimiu a tens\u00e3o: a causa oficial da morte foi meningite.&nbsp;<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>&#8220;Eu que encontrei o corpo. Tinha marca de bala no rosto e sinais de tortura. Como algu\u00e9m que t\u00e1 bem num dia pode morrer de meningite no outro? Foi morte matada&#8221;, afirma um ca\u00e7ador sobre um dos recentes assassinatos do Seringal S\u00e3o Domingos.<\/p><\/blockquote>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/26-de-novembro-de-2019-12.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-44679\" \/><figcaption>As armas dos ca\u00e7adores t\u00eam dupla fun\u00e7\u00e3o: abater os animais e proteg\u00ea-los da viol\u00eancia constante que ronda o seringal (Foto: Avener Prado\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Mas os ca\u00e7adores n\u00e3o se convenceram. \u201cEu que encontrei o corpo. Tinha marca de bala no rosto e sinais de tortura\u201d, garante o homem que n\u00e3o quis se identificar. \u201cComo algu\u00e9m que t\u00e1 bem num dia pode morrer de meningite no outro? Foi morte matada\u201d, atesta.<\/p>\n<p>Esse ser\u00e1 apenas mais um dos incont\u00e1veis assassinatos n\u00e3o explicados no Seringal S\u00e3o Domingos.&nbsp;<\/p>\n<h1>A contagem de corpos<\/h1>\n<p>Foi por um peda\u00e7o de terra do seringal que o mineiro Nemes Machado de Oliveira foi assassinado, em mar\u00e7o de 2019. E foi esse o crime que nos levou at\u00e9 l\u00e1 pela primeira vez.<\/p>\n<p>Numa manh\u00e3 de s\u00e1bado, dia 30 de mar\u00e7o, seis pistoleiros em tr\u00eas motos, todos armados, invadiram o seringal. Morador do primeiro lote, logo na entrada, Pedro Maciel, paranaense de Terra Roxa, foi o primeiro a ser abordado. Dois pistoleiros ficaram com ele. \u201cMandaram eu pegar meus documentos, porque iam queimar minha casa\u201d, conta por entre os escombros do barraco.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/26-de-novembro-de-2019-13.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-44680\" \/><figcaption>Escombros do barraco de Pedro Maciel, destru\u00eddo no dia da morte de Nemes (Foto: Avener Prado\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>De l\u00e1, os outros pistoleiros seguiram para a propriedade de Nemes. Era cedo, ele tinha tratado dos bichos e estava tomando caf\u00e9. N\u00e3o teve tempo de subir as escadas para se esconder dos jagun\u00e7os dentro de casa. Foi alvejado nas costas e caiu pr\u00f3ximo aos degraus. Morreu por volta das 7h. Sua casa tamb\u00e9m foi queimada.<br \/><!--nextpage--><\/p>\n<p>O boato chegou a Acrel\u00e2ndia, onde ficam v\u00e1rios dos posseiros durante a semana, por volta das 15h. A pol\u00edcia do Acre, mais pr\u00f3xima, n\u00e3o podia cruzar o limite do estado para resgatar o corpo no Amazonas. E a pol\u00edcia do Amazonas n\u00e3o foi, por conta da dist\u00e2ncia. Coube a Kailon, filho de Nemes, e a um cortejo de posseiros ir buscar o corpo. S\u00f3 conseguiram chegar ao seringal na tarde do domingo. Nemes j\u00e1 estava em decomposi\u00e7\u00e3o e escurecido pelo fogo que destruiu a casa. Ao lado dele, cartuchos de muni\u00e7\u00e3o .38 e .22.<\/p>\n<p>A execu\u00e7\u00e3o de Nemes gerou um inqu\u00e9rito da Pol\u00edcia Federal. Segundo o \u00f3rg\u00e3o, a investiga\u00e7\u00e3o est\u00e1 em andamento e, por isso, n\u00e3o podem ser divulgadas maiores informa\u00e7\u00f5es. Sua morte foi uma das 32 que aconteceram no campo em 2019, segundo relat\u00f3rio rec\u00e9m-divulgado pela Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT), que aponta aumento de 14% na viol\u00eancia a pequenos agricultores, ind\u00edgenas e quilombolas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Reconstituindo a narrativa do assassinato de Nemes a partir dos depoimentos dos posseiros, v\u00eam \u00e0 tona outras mortes de pessoas que se envolveram com terras no S\u00e3o Domingos. Primeiro, a do vereador de Porto Velho, Joaquim Vilela, o Pitico, em 2017. Depois a de seu irm\u00e3o Gabriel, em 2018. Fora os que foram alvo, mas sobreviveram.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/23-de-novembro-de-2019-2.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-44685\" \/><figcaption> Luiz Poklen carrega na pele os vest\u00edgios da viol\u00eancia do S\u00e3o Domingos: &#8220;S\u00f3 n\u00e3o morri porque tamb\u00e9m estava armado&#8221; (Foto: Avener Prado\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>O paulista Luiz Poklen, de 65 anos, \u00e9 um deles. Para ele, a contagem de v\u00edtimas, de 2015 at\u00e9 aqui, n\u00e3o fica abaixo de 60&nbsp; mortos e feridos. Em 1\u00ba de agosto de 2017, ele mesmo entrou para essa estat\u00edstica. Estava de moto, com o filho, em um dos ramais que cortam o seringal, quando tomou dois tiros de espingarda \u201cchumbeira\u201d, um atr\u00e1s do ombro, outro na boca. O chumbo que perfurou sua boca foi parar na costela do filho. \u201cS\u00f3 n\u00e3o morri porque estava armado\u201d, diz. Ele alega que pistoleiros estiveram no hospital para terminar o servi\u00e7o, mas os policiais de plant\u00e3o impediram a execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h1>Sem santo, sem vil\u00e3o<\/h1>\n<p>Nas conversas dos posseiros do S\u00e3o Domingos, quase t\u00e3o frequentes como as mortes s\u00e3o as men\u00e7\u00f5es a tr\u00eas nomes: Volnei Roberto de P\u00e1dua, Valmor Dilli e Carlos Roberto Passos.<\/p>\n<p>Valmor Dilli \u00e9 um grande empres\u00e1rio do setor madeireiro em Nova Calif\u00f3rnia, cidade a cerca de 70 quil\u00f4metros do seringal. S\u00f3 no distrito, ele tem duas serrarias e uma beneficiadora. Exporta boa parte de sua produ\u00e7\u00e3o para a Europa. Al\u00e9m de extrair madeira na regi\u00e3o, sua trajet\u00f3ria converge para o S\u00e3o Domingos, pois ele comprou, em 2018, pouco mais de 2.300 hectares de terra dentro do seringal.&nbsp;<\/p>\n<p>Como todos os que se envolvem com terrenos no S\u00e3o Domingos, n\u00e3o demorou muito para que Dilli mesmo sofresse um atentado. Na manh\u00e3 de ter\u00e7a-feira, 23 de abril de 2019, contou oito tiros disparados em sua dire\u00e7\u00e3o quando dirigia sua caminhonete. Chegou a ser atingido, mas sem maior gravidade e foi liberado do hospital no mesmo dia.&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/28-de-novembro-de-2019-2.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-44681\" \/><figcaption>Nem o posto de um dos maiores madeireiros da regi\u00e3o protegeu Valmor Dilli dos oito tiros que foram disparados em sua dire\u00e7\u00e3o (Foto: Avener Prado\/Rep\u00f3rter Brasil) <\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>\u201cFoi um ataque premeditado, com tudo montado. Logo depois, j\u00e1 tinha not\u00edcia\u201d, conta. Uma dessas not\u00edcias, veiculada num jornal digital local chamado ACJornal.com, estampava na manchete que Dilli seria o&nbsp; mandante do ataque que matou Nemes. \u201cMe jogaram contra os posseiros, mas isso j\u00e1 se esclareceu. Eu n\u00e3o tenho nada contra eles\u201d, disse em entrevista \u00e0<strong> Rep\u00f3rter Brasil. <\/strong>Atualmente, os posseiros alegam que Dilli os ajuda na abertura e manuten\u00e7\u00e3o das estradas no seringal.<\/p>\n<p>J\u00e1 P\u00e1dua \u00e9 o grande respons\u00e1vel pela presen\u00e7a da maioria das mais de 100 fam\u00edlias que reivindicavam lotes dentro do S\u00e3o Domingos \u2013 antes da fuga coletiva. Foi ele quem, a partir de uma escritura fria, negociou \u2013 e em alguns casos, at\u00e9 doou \u2013 as terras aos posseiros que viviam&nbsp; na \u00e1rea. Era com P\u00e1dua que eles faziam contratos simples de compra e venda, sem qualquer valor jur\u00eddico para fins de registro de im\u00f3veis.<\/p>\n<p>Para os posseiros, \u00e9 P\u00e1dua quem est\u00e1 por tr\u00e1s dos atentados e mortes dos \u00faltimos anos. Na vis\u00e3o deles, em entrevistas concedidas em junho, P\u00e1dua estaria querendo expuls\u00e1-los, agora que muitos j\u00e1 fizeram benfeitorias em suas terras, com a inten\u00e7\u00e3o de atrair um novo grupo e revender os mesmos lotes grilados.<br \/><!--nextpage--><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m dono de uma extensa ficha criminal, que inclui estelionato e roubo, P\u00e1dua \u00e9 praticamente um fantasma, cujo paradeiro ningu\u00e9m conhece. A reportagem buscou in\u00fameras formas de contato, mas n\u00e3o conseguiu localiz\u00e1-lo.&nbsp;<\/p>\n<p>Embora o nome de P\u00e1dua seja sempre lembrado como o respons\u00e1vel por ordenar a matan\u00e7a no S\u00e3o Domingos, h\u00e1 outro que parece inspirar o mesmo temor. Ou mais. O de Carlos Roberto Passos, um madeireiro que afirma atuar na legalidade e que come\u00e7ou a entrar na \u00e1rea do S\u00e3o Domingos em 1999.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>&#8220;De 2010 para c\u00e1, j\u00e1 morreram bem mais de cem pessoas&#8221;, afirma Carlos Roberto Passos, madeireiro que tem terreno no seringal<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cO S\u00e3o Domingos \u00e9 uma fraude e eu posso mostrar os caminhos dessa fraude. Os 150 mil hectares j\u00e1 s\u00e3o mais de 1,5 milh\u00e3o\u201d, atesta.<\/p>\n<p>Na m\u00e9trica de Passos, as vultosas cifras de grilagem de terra do seringal s\u00e3o proporcionais \u00e0 contagem de mortos. \u201cEu falo pra voc\u00ea, sem d\u00favida: de 2010 pra c\u00e1, j\u00e1 morreram bem mais de cem pessoas\u201d, diz.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/26-de-novembro-de-2019-11.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-44678\" \/><figcaption>Sem qualquer resqu\u00edcio do Estado, s\u00e3o os posseiros e propriet\u00e1rios de terra da regi\u00e3o que abrem, clandestinamente, as estradas (Foto: Avener Prado\/Rep\u00f3rter Brasil) <\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Impressionante, tamb\u00e9m, \u00e9 outro n\u00famero: o de atentados que Passos conta ter sofrido. Em junho de 2019, eram 10. No in\u00edcio de dezembro, 15. Tanto que sua forma de garantir a seguran\u00e7a mudou entre uma data e outra. Da primeira vez que conversamos, em sua casa em Rio Branco, um vigia guardava a resid\u00eancia do lado de fora. Quando voltamos, a seguran\u00e7a estava na pr\u00f3pria cintura de Passos.<\/p>\n<p>Ele presta servi\u00e7os de extra\u00e7\u00e3o de madeira. Conhece o of\u00edcio como ningu\u00e9m, do maquin\u00e1rio ao funcionamento dos planos de manejo, \u00e0s pr\u00f3prias \u00e1rvores. \u201cJ\u00e1 fiz muita extra\u00e7\u00e3o ilegal, mas agora n\u00e3o mais\u201d, garante. Na segunda vez em que conversamos, me mostra um v\u00eddeo no celular. Seu filho mais velho, na boleia de um caminh\u00e3o, ouvindo m\u00fasica rom\u00e2ntica, de madrugada, \u201cpuxando madeira\u201d. Ele se emociona. \u201cEsse \u00e9 o nosso sonho. S\u00f3 isso.\u201d<\/p>\n<h1>A m\u00e3e de todos os crimes<\/h1>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/25-de-novembro-de-2019.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-44687\" \/><figcaption>Carlos Roberto Passos, apontado pelos posseiros como um dos maiores vil\u00f5es do Seringal, j\u00e1 foi v\u00edtima de 15 atentados (Foto: Avener Prado\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>O seringal S\u00e3o Domingos \u00e9 o bal\u00e3o de ensaio perfeito para diversos crimes. Mas a m\u00e3e de todos&nbsp; \u00e9 a grilagem de terras. A absoluta falta de informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis sobre a quem pertencem, de fato, praticamente todos os lotes por ali torna poss\u00edvel sua apropria\u00e7\u00e3o ilegal, seja pelo uso da for\u00e7a, seja pela documenta\u00e7\u00e3o criativa. No S\u00e3o Domingos, prevalecem os dois.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>O seringal S\u00e3o Domingos \u00e9 o bal\u00e3o de ensaio perfeito para diversos crimes. Mas a m\u00e3e de todos&nbsp; \u00e9 a grilagem de terras. <\/p><\/blockquote>\n<p>Joel Bogo, procurador do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal de Rio Branco, afirma que a grilagem se escora em um c\u00e1lculo simples. \u201c\u00c9 uma conta de risco versus retorno\u201d, diz. Terras griladas s\u00e3o muito mais baratas do que o valor de mercado. Se uma opera\u00e7\u00e3o d\u00e1 certo, o lucro do infrator \u00e9 enorme. \u201cEles invadem novas \u00e1reas esperando que os marcos de regulariza\u00e7\u00e3o sejam flexibilizados\u201d, completa.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/26-de-novembro-de-2019-10.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-44677\" \/><figcaption>Embora ainda haja floresta intocada ao redor, a madeira de valor dentro do seringal j\u00e1 foi praticamente toda derrubada (Foto: Avener Prado\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>E, muitas vezes, os marcos s\u00e3o flexibilizados e os ladr\u00f5es de terra terminam se dando bem \u2013 com o apoio do governo. Os grileiros de L\u00e1brea est\u00e3o prestes a ter um retorno e tanto por conta Medida Provis\u00f3ria 910, editada pelo governo do presidente Jair Bolsonaro em dezembro de 2019, que permite que \u00e1reas p\u00fablicas desmatadas at\u00e9 dezembro de 2018 sejam regularizadas. \u201cEssa medida premia quem ocupou e desmatou, quando dever\u00edamos estar fazendo o contr\u00e1rio\u201d, afirma Brenda Brito, doutora em Ci\u00eancia do Direito pela Universidade de Stanford e pesquisadora do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amaz\u00f4nia).&nbsp;<\/p>\n<p>No caso espec\u00edfico do S\u00e3o Domingos, um outro est\u00edmulo a quem ocupou irregularmente e pela for\u00e7a, degradando a floresta, tamb\u00e9m pode estar a caminho. A Floresta Nacional do Iquiri foi inclu\u00edda pelo governo no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) e pode ser concedida \u00e0 iniciativa privada para atividades como a extra\u00e7\u00e3o de madeira. A \u00e1rea tem 1,4 milh\u00e3o de hectares, maior que Montenegro, pa\u00eds do Leste Europeu.<br \/><!--nextpage--><\/p>\n<h1>Grilagem secular<\/h1>\n<p>Pode-se dizer que essa saga de sangue nesta regi\u00e3o da Amaz\u00f4nia come\u00e7ou h\u00e1 mais de um s\u00e9culo. No dia 15 de novembro de 1899, foi selado o destino sangrento que hoje assola os ocupantes da regi\u00e3o conhecida como Seringal S\u00e3o Domingos.&nbsp;<\/p>\n<p>Naquele dia,&nbsp; em Riberalta, na Bol\u00edvia, foi feito o registro de um t\u00edtulo \u201cdo lugar denominado Santo Domingo\u201d, como diz o documento original, com marcos geogr\u00e1ficos vagos, mas com \u00e1rea aproximada de 150 mil hectares,&nbsp; dentro das fronteiras brasileiras. Foi a partir desse documento boliviano que se criou o empreendimento imobili\u00e1rio Seringal S\u00e3o Domingos, mas a primeira matr\u00edcula brasileira data de 1976.&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/23-de-novembro-de-2019-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-44684\" \/><figcaption>Dezenas de posseiros alegam ser donos de lotes no seringal, mas documentos n\u00e3o t\u00eam qualquer valor jur\u00eddico (Foto: Avener Prado\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Na pr\u00e1tica, o seringal n\u00e3o passa de uma abstra\u00e7\u00e3o. Mas isso n\u00e3o impediu que, a partir dele, fossem emitidos, desdobrados, desmembrados, sobrepostos, realocados, grilados, vendidos e revendidos t\u00edtulos e mais t\u00edtulos de terra.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>&#8220;\u00c9 uma regi\u00e3o sem fim. Ningu\u00e9m sabe quem est\u00e1 certo ou errado, se a terra \u00e9 p\u00fablica ou privada&#8221;, resume o defensor p\u00fablico do estado do Acre, Celso Ara\u00fajo.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201c\u00c9 uma regi\u00e3o sem fim. Ningu\u00e9m sabe quem est\u00e1 certo ou errado, se a terra \u00e9 p\u00fablica ou privada\u201d, resume o defensor p\u00fablico do estado do Acre, Celso Ara\u00fajo.<\/p>\n<p>Por entre o caos fundi\u00e1rio, a maior esperan\u00e7a dos posseiros \u00e9 que o Incra (Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria) esclare\u00e7a, de uma vez por todas, a situa\u00e7\u00e3o real dessas terras. Mas a vis\u00e3o do ouvidor agr\u00e1rio no Acre, Antonio Bra\u00f1a, n\u00e3o oferece muito alento. \u201cH\u00e1 complexidade no entendimento jur\u00eddico e o Incra n\u00e3o tem certeza da situa\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria dessa gente. O cart\u00f3rio de L\u00e1brea \u00e9 \u2013 ou era \u2013 uma bagun\u00e7a. Mas eu diria que \u00e9 uma ocupa\u00e7\u00e3o irregular tanto de grandes como de pequenos [propriet\u00e1rios]\u201d, explica.<\/p>\n<p>Em 2004, o Incra&nbsp; ajuizou uma a\u00e7\u00e3o na Justi\u00e7a Federal no Amazonas questionando a validade do t\u00edtulo boliviano e requerendo a anula\u00e7\u00e3o das matr\u00edculas baseadas nele. Em 2013, o pedido foi deferido em primeira inst\u00e2ncia e 28 matr\u00edculas foram canceladas. A princ\u00edpio, a terra voltaria para as m\u00e3os da Uni\u00e3o. Mas houve recursos por v\u00e1rios desses interessados e o processo segue tramitando, agora em segunda inst\u00e2ncia, no Tribunal Regional Federal da 1\u00aa regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre as matr\u00edculas canceladas, talvez a mais c\u00e9lebre seja a de n\u00famero 1741, que P\u00e1dua adquiriu por R$ 8 mil 1994 \u2013 o equivalente a hoje R$ 61 mil \u2013 e que custou v\u00e1rias vidas, como a de Nemes.&nbsp;<\/p>\n<p>Por implica\u00e7\u00e3o dessa a\u00e7\u00e3o, processos criminais foram abertos contra alguns dos alegados donos de terra no S\u00e3o Domingos. O Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) os acusou de forma\u00e7\u00e3o de quadrilha, estelionato, crime contra a administra\u00e7\u00e3o ambiental e invas\u00e3o de terras p\u00fablicas. A pe\u00e7a do MPF descreve em detalhes a atua\u00e7\u00e3o do grupo.&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/26-de-novembro-de-2019-9.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-44676\" \/><figcaption>Viol\u00eancia crescente fez com que v\u00e1rios abandonassem \u00e0s pressas os lotes que reivindicam (Foto: Avener Prado\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>\u201cTrata-se de grilagem com <em>modus operandi <\/em>peculiar, pois consistia na clonagem de documentos legais, fazendo-se um novo registro do im\u00f3vel em local diverso, de forma a possibilitar a extra\u00e7\u00e3o de madeira e posterior revenda, para que fosse utilizada como fazenda de gado\u201d, diz o documento.<\/p>\n<p>Entre os acusados, estavam o ent\u00e3o oficial do cart\u00f3rio de registro de im\u00f3veis de L\u00e1brea \u2013 respons\u00e1vel, entre tantas outras, pela matr\u00edcula 1741 \u2013, Ant\u00f4nio Luiz Mendes da Silva, falecido, e Carlos Celso Ribeiro, ex-prefeito da cidade acreana de Senador Guiomar, que, segundo os ocupantes do S\u00e3o Domingos, \u00e9 dono de terras vizinhas ao seringal.<\/p>\n<p>Outro acusado no processo criminal, Arnaldo Vilela, agiu, segundo o MPF, como \u201cmestre na arte da grilagem\u201d. A a\u00e7\u00e3o conta que Vilela alterava o memorial descritivo dos terrenos, at\u00e9 chegar a um ponto de que a&nbsp; \u201cnova localiza\u00e7\u00e3o do im\u00f3vel de matr\u00edcula 1.637 est\u00e1, efetivamente, a 71,56 Km da localiza\u00e7\u00e3o anterior\u201d, segue a acusa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n<p>O processo j\u00e1 gerou diversas condena\u00e7\u00f5es, mas segue tramitando em fun\u00e7\u00e3o das apela\u00e7\u00f5es dos acusados.<\/p>\n<h1>Sonhando com bois&nbsp;<br \/><\/h1>\n<p>\u201cFaltavam poucos metros de cerca pra gente poder botar gado aqui\u201d, lamenta Kailon, o filho de Nemes, uma das v\u00edtimas desse conflito antigo, alguns meses antes de abandonar o seringal por receio de ter o mesmo destino do pai. Kailon tinha um lote vizinho ao de Nemes, morto em mar\u00e7o de 2019. Para conseguir o rebanho, eles planejavam propor sociedade em regime de meia com o propriet\u00e1rio de uma grande fazenda vizinha.<br \/><!--nextpage--><\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/26-de-novembro-de-2019-8.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-44675\" \/><figcaption>Pertences pessoais deixados para tr\u00e1s conferem clima fantasmag\u00f3rico ao seringal (Foto: Avener Prado\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Seja um pequeno ou grande propriet\u00e1rio de terra, todos os ocupantes do S\u00e3o Domingos&nbsp; t\u00eam o esp\u00edrito de pecuarista. Diferente de outras regi\u00f5es de conflito fundi\u00e1rio conflagrado na Amaz\u00f4nia, l\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 movimentos sociais organizados, nem uma dimens\u00e3o pol\u00edtica de luta pela terra.&nbsp;<\/p>\n<p>Alguns dependem at\u00e9 do Bolsa-Fam\u00edlia, mas reivindicam \u00e1reas grandes, de 100, 200, 300 hectares. Para dez entre dez, a gl\u00f3ria suprema seria criar boi. \u201c\u00c9 o gado que tira o homem da mis\u00e9ria\u201d, diz Agrecino de Souza, radialista e ex-vereador de Acrel\u00e2ndia, que nos guiou em nossa segunda passagem pelo seringal.&nbsp;<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>&#8220;\u00c9 o gado que tira o homem da mis\u00e9ria&#8221;, diz Agrecino de Souza, radialista e ex-vereador de Acrel\u00e2ndia<\/p><\/blockquote>\n<p>Em comum, tamb\u00e9m, h\u00e1 a concep\u00e7\u00e3o de que a floresta \u00e9 um obst\u00e1culo para conquistar essa vit\u00f3ria. E se, para os grandes propriet\u00e1rios da regi\u00e3o, por menor que seja a fiscaliza\u00e7\u00e3o, h\u00e1 algo a perder, a inseguran\u00e7a fundi\u00e1ria vivida diariamente por esses pequenos posseiros os faz relevar completamente a legisla\u00e7\u00e3o ambiental. Sem terra regularizada, n\u00e3o h\u00e1 nada a perder.&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/28-de-novembro-de-2019-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-44683\" \/><figcaption>O cen\u00e1rio p\u00f3s-apocal\u00edptico da entrada de Nova Calif\u00f3rnia \u00e9 uma amostra do futuro que nos espera se o ritmo de destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia for mantido (Foto: Avener Prado\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>\u201cAqui n\u00f3s n\u00e3o derruba castanheira, n\u00f3s s\u00f3 derruba cumaru de bola\u201d, brinca um deles, ironizando a lei que pro\u00edbe expressamente a derrubada da castanheira. Cumaru de bola \u00e9 o nome inventado por eles, jocosamente, para despistar sobre o fato deles derrubarem a \u00e1rvore protegida. O efeito desse racioc\u00ednio \u00e9 vis\u00edvel no seringal. Muitos vivem da madeira, ainda que sonhem com o gado.&nbsp;<\/p>\n<h1>A morte da floresta<\/h1>\n<p>Ainda que moradores da regi\u00e3o sonhem em se tornar pecuaristas, o distrito mais pr\u00f3ximo do seringal \u00e9 uma prova do que movimenta, hoje, a economia local. Ao entrarmos em Nova Calif\u00f3rnia, pertencente a Porto Velho, Rond\u00f4nia, o que se v\u00ea \u00e9 um futuro dist\u00f3pico. Serrarias dos dois lados da estrada; uma oficina mec\u00e2nica com carca\u00e7as de m\u00e1quinas utilizadas no desmate, outras sendo consertadas na rua principal. Ao fundo, um imenso forno de outra serraria.<\/p>\n<p>Alguns quil\u00f4metros ramal adentro, mais um grande empreendimento de beneficiamento de madeira, a Madeireira S\u00e3o Pedro. Um empres\u00e1rio local do ramo garante que a empresa pertence, de fato, a Chaules Volban Pozzebon. Trata-se do homem considerado o maior desmatador do Brasil. Preso em 2019, pela Opera\u00e7\u00e3o Deforest da Pol\u00edcia Federal, ele possui 120 madeireiras em toda a regi\u00e3o Norte, seja em nome pr\u00f3prio, seja no de laranjas.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/26-de-novembro-de-2019-6.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-44692\" \/><figcaption> Como grande parte da Amaz\u00f4nia, o seringal tamb\u00e9m queimou ferozmente e contribui para os c\u00e9us escuros em pleno dia no Sudeste (Foto: Avener Prado\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>No ramal que conecta Nova Calif\u00f3rnia ao S\u00e3o Domingos, embora sejam claros diversos n\u00edveis de agress\u00f5es \u00e0 floresta, h\u00e1 poucas \u00e1reas de corte raso. Ao chegar na entrada do seringal, abre-se uma clareira, com apenas pequenos retalhos de floresta prim\u00e1ria. Quase toda a madeira de valor j\u00e1 se foi. Restam algumas majestosas suma\u00famas, madeira de segunda para eles, esp\u00e9cies menores. E pasto.&nbsp;<\/p>\n<p>Os parcos estoques de madeira-de-lei remanescentes em seus lotes s\u00e3o vistos como moeda corrente. Em junho, quando estivemos l\u00e1 pela primeira vez, os posseiros fizeram uma vaquinha para pagar a di\u00e1ria de aluguel de uma motoniveladora, o combust\u00edvel e a remunera\u00e7\u00e3o do operador da m\u00e1quina. Alguns entraram no rateio com dinheiro. Outros, com toras.<\/p>\n<p>Em uma tarde de novembro, a atmosfera defumada pelas queimadas ainda era percept\u00edvel no lote de 100 hectares de um posseiro conhecido como Carneiro. Ele derrubou a maior parte da cobertura vegetal de sua \u00e1rea \u2013 muito mais do que os 20% que lhe caberiam, fosse essa uma ocupa\u00e7\u00e3o legal de terras no bioma amaz\u00f4nico \u2013 para plantar 40 mil p\u00e9s de banana. \u201cAinda quero plantar mais 20 mil\u201d, planeja. Entre o verde dos brotos de meio metro de altura, troncos e restos de floresta carbonizados.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/26-de-novembro-de-2019-7.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-44674\" \/><figcaption> Como os corpos do S\u00e3o Domingos, a floresta tamb\u00e9m carrega suas cicatrizes (Foto: Avener Prado\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Em sua longa ficha criminal, em que tamb\u00e9m aparece a alcunha \u201cLobisomem\u201d, a disposi\u00e7\u00e3o para o trabalho de Carneiro parece estar a servi\u00e7o do tr\u00e1fico de drogas. Em um dos processos a que respondeu, que o levou \u00e0 cadeia em flagrante, foi pego com 1,84 kg de coca\u00edna.&nbsp;<br \/><!--nextpage--><\/p>\n<p>O filho de Carneiro nasceu na Bol\u00edvia, onde ele diz que planta castanhas para depois vend\u00ea-las no Brasil. O hist\u00f3rico de Carneiro n\u00e3o \u00e9 desconhecido dos outros posseiros da regi\u00e3o. H\u00e1 especula\u00e7\u00f5es, inclusive, de que o neg\u00f3cio principal dele na Bol\u00edvia n\u00e3o sejam as castanhas. Mas isso n\u00e3o se contrap\u00f5e, nas falas dos posseiros, \u00e0 sua qualidade de trabalhador. Ao contr\u00e1rio. O seringal parece ter essa voca\u00e7\u00e3o: a febre da terra releva qualquer passado.&nbsp;<\/p>\n<p>Esse ganancioso imagin\u00e1rio explorador e colonizador \u2013 seja para a extra\u00e7\u00e3o da madeira, a venda de castanhas ou a cria\u00e7\u00e3o de gado \u2013 \u00e9 o combust\u00edvel da febre da terra no S\u00e3o Domingos. Por ela, todos ali podem ser considerados vil\u00f5es. Pequenos e grandes desmatam sem qualquer pudor. Mesmo com uma fiscaliza\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, os grandes personagens dessa saga acumulam milh\u00f5es de reais em multas ambientais. A voca\u00e7\u00e3o da terra \u00e9 largamente ignorada em nome da obsess\u00e3o pecuarista, que, ali, devasta um hectare de floresta para abrigar apenas um boi.&nbsp;<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, todos s\u00e3o igualmente v\u00edtimas, tanto do caos fundi\u00e1rio que impera na regi\u00e3o como da viol\u00eancia desenfreada \u2013 e sem nenhuma esperan\u00e7a de solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><em>*Essa reportagem foi produzida com financiamento do Rainforest Journalism Fund em parceria com o Pulitzer Center.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O post <a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2020\/04\/assassinatos-desmatamento-roubo-terras-laboratorio-crime-amazonia\/\">Assassinatos, desmatamento e roubo de terras: um laborat\u00f3rio do crime no meio da Amaz\u00f4nia<\/a> apareceu primeiro em <a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\">Rep\u00f3rter Brasil<\/a>.<\/p>\n<p>Fonte: Reporter Brasil<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Infoeconomico.com.br &#8211; Seu Portal de Not\u00edcias<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAqui n\u00e3o tem nenhum santo\u201d. Moradores de L\u00e1brea (AM) de diferentes perfis e classes sociais \u2013 grandes fazendeiros, pequenos agricultores, descendentes de soldados da borracha e madeireiros ilegais \u2013 repetem a frase numa tentativa de explicar por que o munic\u00edpio, rodeado por \u00e1reas protegidas de floresta, \u00e9 um dos mais violentos e desmatados da Amaz\u00f4nia. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[288,43],"class_list":["post-222749","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-central-noticias","tag-economiabrasil","tag-infoeconomico-news"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/222749","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=222749"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/222749\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=222749"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=222749"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=222749"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}