{"id":22113,"date":"2019-04-30T20:21:36","date_gmt":"2019-04-30T23:21:36","guid":{"rendered":"http:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/ha-15-anos-vitima-de-trabalho-escravo-trabalhador-ainda-foi-usado-para-pegar-emprestimo\/"},"modified":"2019-04-30T20:21:36","modified_gmt":"2019-04-30T23:21:36","slug":"ha-15-anos-vitima-de-trabalho-escravo-trabalhador-ainda-foi-usado-para-pegar-emprestimo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/ha-15-anos-vitima-de-trabalho-escravo-trabalhador-ainda-foi-usado-para-pegar-emprestimo\/","title":{"rendered":"H\u00e1 15 anos v\u00edtima de trabalho escravo, trabalhador ainda foi usado para pegar empr\u00e9stimo"},"content":{"rendered":"<p>O agricultor Ad\u00e3o Spinola trabalhou por 15 anos em uma<br \/>\nfazenda de fumo onde raramente via a cor de dinheiro. Grande parte do tempo embriagado pela cacha\u00e7a<br \/>\ntrazida pelo seu&nbsp; empregador, ele dormia<br \/>\nem uma casa sem banheiro ou cozinha que ficava dentro da fazenda, na zona rural<br \/>\ndo munic\u00edpio de Ven\u00e2ncio Aires, no Rio Grande do Sul. Mas, ainda que n\u00e3o<br \/>\ntivesse acesso \u00e0 \u00e1gua tratada ou a condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de seguran\u00e7a e higiene, o<br \/>\nagricultor possu\u00eda acesso a empr\u00e9stimos banc\u00e1rios &#8211; e uma alta d\u00edvida.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/imagem-4-800x450.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-39916\" \/><figcaption>Para aguentar as condi\u00e7\u00f5es do local, Ad\u00e3o Spinola passou a beber. Ele vivia parte do tempo embriagado pela cacha\u00e7a trazida pelo seu empregador Foto: Caio Castor\/Rep\u00f3rter Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Ad\u00e3o s\u00f3 descobriu que devia R$ 180 mil reais ao Banco do Brasil quando foi resgatado de situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga ao trabalho escravo no \u00faltimo dia 15. O empr\u00e9stimo n\u00e3o havia sido contratado por ele, e sim pelo seu patr\u00e3o, Atelor Lu\u00eds Bald<strong>. <\/strong>O fumicultor utilizava o nome do empregado para obter cr\u00e9dito subsidiado no banco, e tamb\u00e9m como fiador em seus pr\u00f3prios empr\u00e9stimos.<\/p>\n<p>Mas Ad\u00e3o nunca lidou com tanto dinheiro, nem mesmo com o<br \/>\nvalor completo do seu pr\u00f3prio sal\u00e1rio. &#8220;As vezes me davam pouco dinheiro,<br \/>\nas vezes n\u00e3o. De uns tr\u00eas anos para c\u00e1, eu n\u00e3o pude comprar nem um sapato\u201d, afirma.<br \/>\n\u201cDava s\u00f3 para a b\u00f3ia, e \u00e0s vezes faltava ainda.&#8221;<\/p>\n<p>O patr\u00e3o nega que tenha se beneficiado sozinho, e argumenta<br \/>\nque ambos eram &#8220;parceiros&#8221;&nbsp; no<br \/>\nneg\u00f3cio. Mas, segundo os auditores fiscais do trabalho, o valor era usado para<br \/>\nfinanciar as culturas de milho e de fumo que eram propriedade de Atelor, dono<br \/>\nda fazenda onde trabalham sete empregados. Seis deles moram no local de<br \/>\ntrabalho, em quatro casas como aquela onde morava Ad\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;O Atelor chegava com um papel e o Ad\u00e3o<br \/>\nassinava de boa f\u00e9. Ao longo do tempo, criou-se uma rela\u00e7\u00e3o de completa<br \/>\ndepend\u00eancia,&#8221; diz o auditor fiscal do trabalho Rafael de Andrade<br \/>\nVieira. &#8220;Eu acho muito estranho que a institui\u00e7\u00e3o financeira aceite ele<br \/>\ncomo fiador, porque ele n\u00e3o tinha bem nenhum&#8221;.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/imagem-1-800x450.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-39919\" \/><figcaption>Ad\u00e3o morava no mesmo local onde ficava o forno usado para secar o fumo. Ali, o trabalhador fazia suas refei\u00e7\u00f5es em um fog\u00e3o improvisado no ch\u00e3o. Foto: Caio Castor \/ Rep\u00f3rter Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Entre 2004 e 2018, Atelor e Ad\u00e3o fizeram contratos de<br \/>\n&#8220;parceria agr\u00edcola&#8221;. Esses contratos s\u00e3o comuns na regi\u00e3o, onde um<br \/>\ntrabalhador cede um espa\u00e7o da fazenda para que outro cuide dela, em troca de<br \/>\nparte da produ\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, para os auditores, era claro que n\u00e3o se tratava de<br \/>\numa parceria, mas de uma rela\u00e7\u00e3o entre patr\u00e3o e empregado. Al\u00e9m de controlar o<br \/>\ndinheiro, era Atelor quem determinava como era a feita a produ\u00e7\u00e3o e as suas<br \/>\nregras.<\/p>\n<p>A cidade de Ven\u00e2ncio Aires \u00e9 a maior produtora de tabaco do<br \/>\npa\u00eds, e a produ\u00e7\u00e3o dessas propriedades acaba na m\u00e3o de grandes empresas, muitas<br \/>\ndelas exportadoras do produto.&nbsp; O fumo<br \/>\nproduzido por Atelor era vendido para as empresas CTA (Continental Tobaccos<br \/>\nAlliance) e Tabacos Marasca. A sua esposa mant\u00e9m um contrato de integra\u00e7\u00e3o com<br \/>\nas duas companhias, comprando sementes e insumos da empresa e se comprometendo<br \/>\na vender ao final da safra. A CTA e a Tabascos n\u00e3o foram responsabilizadas pelo<br \/>\ncaso.<\/p>\n<h2>\u201cEu estava bom para ficar morto\u201d<\/h2>\n<p>Ad\u00e3o morava no mesmo local onde ficava o forno usado para secar as plantas de fumo, que permanecia imundo mesmo duas semanas ap\u00f3s a a\u00e7\u00e3o dos auditores. Ali, o trabalhador fazia suas refei\u00e7\u00f5es em um fog\u00e3o improvisado no ch\u00e3o. A \u00e1gua, invariavelmente suja, ele retirava de um a\u00e7ude pr\u00f3ximo a sua casa. Sem banheiro, ele era obrigado a improvisar na vegeta\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima a sua casa.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/imagem-3-800x450.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-39918\" \/><figcaption>Considerado um \u201cparceiro\u201d na produ\u00e7\u00e3o pelo patr\u00e3o, o empregado n\u00e3o recebia pelo trabalho &#8220;As vezes me davam pouco dinheiro, as vezes n\u00e3o.  Foto: Caio Castor \/ Rep\u00f3rter Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Nos quinze anos em que esteve neste emprego, Ad\u00e3o desenvolveu um problema de alcoolismo. Ele conta que pouco bebia antes de morar ali, mas essa foi a maneira que encontrou para lidar com a situa\u00e7\u00e3o. Muitas vezes ele s\u00f3 conseguia dinheiro do patr\u00e3o para sustentar os seus v\u00edcios. &#8220;Eu s\u00f3 via cinco, dez pilas, quando eu precisava para comprar um cigarro ou um outro v\u00edcio a\u00ed.&#8221;<\/p>\n<p>Em alguns momentos de embriaguez, Ad\u00e3o conta que foi agredido pelo patr\u00e3o, com quem discutia constantemente. &#8220;Ele me deu muito soco, comigo b\u00eabado. Quando eu dizia uma coisa que ele n\u00e3o gostava, quando eu pedia alguma coisa e ele negava&#8221;.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o ficou t\u00e3o grave que ele pensou diversas vezes em se matar, e diz que isso poderia ter acontecido se passasse mais tempo na ch\u00e1cara. &#8220;Eu estava bom para ficar morto, me jogar numa \u00e1gua a\u00ed e morrer,&#8221; diz.<\/p>\n<p>A falta de pagamentos de sal\u00e1rios e a entrega de bebidas alco\u00f3licas cooperaram para que o crime de trabalho escravo fosse caracterizado, segundo a auditora auditora fiscal Lucilene Pacini.<\/p>\n<p>O empregador culpa o pr\u00f3prio trabalhador pela situa\u00e7\u00e3o em que vivia. Argumenta que, quando Ad\u00e3o chegou, havia uma mangueira que levava \u00e1gua pot\u00e1vel ao local. &#8220;H\u00e1 quatro anos atr\u00e1s ele veio para c\u00e1, tinha \u00e1gua, tinha chuveiro, s\u00f3 n\u00e3o tinha vaso. A\u00ed ele consumiu com tudo&#8221;, diz Atelor. &#8220;Ele simplesmente n\u00e3o cuidou. Ele tinha que preservar e n\u00e3o preservou&#8221;.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/imagem-2-800x450.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-39917\" \/><figcaption>No local onde morava, n\u00e3o havia banheiro nem acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel. Foto: Caio Castor \/ Rep\u00f3rter Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<h2>Futuro?<\/h2>\n<p>Ad\u00e3o recebeu o seguro-desemprego para trabalhadores resgatados, equivalente a tr\u00eas sal\u00e1rios m\u00ednimos, al\u00e9m de cerca de dez mil reais em um acordo com o antigo empregador. Mas os valores n\u00e3o s\u00e3o garantia para o futuro, e Ad\u00e3o ainda tem grandes preocupa\u00e7\u00f5es financeiras. Uma \u00e9 a busca da aposentadoria rural, que pretende conseguir no pr\u00f3ximo ano. A outra, \u00e9 &#8220;limpar o nome no Serasa&#8221;.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s sair da planta\u00e7\u00e3o de fumo, Ad\u00e3o parece uma pessoa totalmente distinta daquela encontrada pela fiscaliza\u00e7\u00e3o, quando estava embriagado e usando roupas sujas. Calmo, hoje ele diz que evita guardar \u00f3dio do que aconteceu ali.<\/p>\n<p>Ele foi colocado em uma casa de atendimento para idosos na cidade de Cruzeiro do Sul, a pedido do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho. J\u00e1 n\u00e3o bebe e pretende ir morar com uma parente em breve. Sobre novas perspectivas depois dos 15 anos de explora\u00e7\u00e3o diz: &#8220;J\u00e1 tenho 62 anos, eu tenho esperan\u00e7a de viver, s\u00f3 isso&#8221;.<\/p>\n<p>O post <a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2019\/04\/ha-15-anos-vitima-de-trabalho-escravo-trabalhador-ainda-foi-usado-para-pegar-emprestimo\/\">H\u00e1 15 anos v\u00edtima de trabalho escravo, trabalhador ainda foi usado para pegar empr\u00e9stimo<\/a> apareceu primeiro em <a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\">Rep\u00f3rter Brasil<\/a>.<\/p>\n<p>Fonte: Reporter Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O agricultor Ad\u00e3o Spinola trabalhou por 15 anos em uma fazenda de fumo onde raramente via a cor de dinheiro. Grande parte do tempo embriagado pela cacha\u00e7a trazida pelo seu&nbsp; empregador, ele dormia em uma casa sem banheiro ou cozinha que ficava dentro da fazenda, na zona rural do munic\u00edpio de Ven\u00e2ncio Aires, no Rio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":22114,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[43],"class_list":["post-22113","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-central-noticias","tag-infoeconomico-news"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22113","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22113"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22113\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22113"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22113"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22113"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}