{"id":219821,"date":"2025-11-03T20:09:39","date_gmt":"2025-11-03T23:09:39","guid":{"rendered":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/recessao-deste-ano-deve-continuar-no-proximo-diz-martin-wolf\/"},"modified":"2025-11-03T20:09:39","modified_gmt":"2025-11-03T23:09:39","slug":"recessao-deste-ano-deve-continuar-no-proximo-diz-martin-wolf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/recessao-deste-ano-deve-continuar-no-proximo-diz-martin-wolf\/","title":{"rendered":"Recess\u00e3o deste ano deve continuar no pr\u00f3ximo, diz Martin Wolf"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"212\" src=\"https:\/\/www.infomoney.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/wolf001.191302.jpg?fit=300%2C212&amp;quality=75&amp;strip=all\" class=\"attachment-medium size-medium wp-post-image\" alt=\"\" style=\"float:right;margin:0 0 10px 10px\" \/><\/p>\n<p>A crise econ\u00f4mica decorrente da pandemia do coronav\u00edrus \u00e9 mais grave que a de 2008, deve durar dois anos e ter efeitos profundos de longo prazo, segundo o comentarista-chefe de economia do jornal Financial Times, Martin Wolf.<\/p>\n<p>Em entrevista, Wolf afirma estar preocupado com o Brasil e com outros pa\u00edses emergentes, que ter\u00e3o dificuldade para aumentar os gastos para tentar reduzir os efeitos da recess\u00e3o que est\u00e1 por vir.<\/p>\n<p>Diz ainda que a atua\u00e7\u00e3o dos principais l\u00edderes globais \u00e9 inferior \u00e0 de 2008, quando os pa\u00edses se uniram para enfrentar o problema. &#8220;Na crise financeira, t\u00ednhamos o G-20 trabalhando junto de modo eficiente. Essa imagem \u00e9 muito diferente da que temos hoje. Ent\u00e3o, \u00e9 f\u00e1cil tudo dar muito errado.&#8221;<\/p>\n<p>Para Wolf, dada a escassez de recursos, a prioridade no Brasil tem de ser a popula\u00e7\u00e3o mais carente. &#8220;Ajudar o trabalhador informal a manter sua renda \u00e9 a prioridade n\u00famero um.&#8221; A seguir, trechos da entrevista:<\/p>\n<p><strong>Que motivos levam o sr. a acreditar que essa crise ser\u00e1 pior que a de 2008?<\/strong><\/p>\n<p>As medidas que est\u00e3o sendo adotadas para controlar a epidemia v\u00e3o fechar grande parte da economia. Vimos isso na China. Ningu\u00e9m sabe ainda o que aconteceu l\u00e1 no primeiro trimestre, mas deve haver uma contra\u00e7\u00e3o muito grande do PIB e, provavelmente, no segundo trimestre tamb\u00e9m. A Europa e os Estados Unidos est\u00e3o fazendo o mesmo: fechando lojas, restaurantes, entretenimento. Teremos uma interrup\u00e7\u00e3o massiva de oferta.<\/p>\n<p>Depois, trabalhadores n\u00e3o ser\u00e3o pagos, empresas ficar\u00e3o sem receita e v\u00e3o demitir funcion\u00e1rios. Muitas podem ir \u00e0 fal\u00eancia. Tudo isso n\u00e3o importaria se volt\u00e1ssemos ao normal em dois meses. Mas n\u00e3o parece que isso vai acontecer. A doen\u00e7a ser\u00e1 controlada enquanto ningu\u00e9m est\u00e1 tendo contato com os outros.<\/p>\n<p>Quando as economias forem reabertas, \u00e9 esperado que a transmiss\u00e3o volte. \u00c9 o que est\u00e1 acontecendo na China. Se isso acontecer, teremos uma nova fase de fechamento da economia. Esse processo de abrir e fechar a economia pode continuar at\u00e9 o ano que vem. Pode continuar at\u00e9 que haja uma cura, e os especialistas parecem concordar que n\u00e3o haver\u00e1 uma cura que possa ser disponibilizada em escala antes do fim do ano que vem. At\u00e9 l\u00e1, muitos neg\u00f3cios v\u00e3o desaparecer. Esse vai ser um choque de oferta gigantesco, com consequ\u00eancias graves de solv\u00eancia e de demanda.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 prov\u00e1vel que tenhamos uma recess\u00e3o neste ano e que isso prossiga em 2021. Por isso, acho razo\u00e1vel assumir que esse choque econ\u00f4mico pode ser pior que a crise financeira de 2008. Tamb\u00e9m pode ter efeitos de mais longo prazo, porque haver\u00e1 uma grande interrup\u00e7\u00e3o de com\u00e9rcio e viagens. Uma consequ\u00eancia pode ser que a estrutura da cadeia de fornecimento e da economia global sejam transformadas permanentemente.<\/p>\n<p>Mas, claro, tudo isso pode ser muito pessimista e o v\u00edrus pode acabar sendo controlado no ver\u00e3o (do Hemisf\u00e9rio Norte). A\u00ed, seria algo menos grave. Mas, neste momento, me parece mais prov\u00e1vel que haja uma recess\u00e3o grave.<\/p>\n<p><strong>Em sua \u00faltima coluna, o sr. escreveu que precisaremos de l\u00edderes fortes e inteligentes para lidar com essa crise. As principais lideran\u00e7as globais s\u00e3o capacitadas para isso?<\/strong><\/p>\n<p>O problema \u00e9 que, ao contr\u00e1rio da crise financeira, as principais economias do mundo hoje s\u00e3o incapazes de colaborar umas com as outras. Trump \u00e9 um ignorante nacionalista que n\u00e3o entende como lidar com esse tipo de problema. Essa quest\u00e3o est\u00e1 completamente al\u00e9m dele intelectualmente. Por sorte, tem uma ou duas pessoas competentes no seu governo. O Fed (Federal Reserve, o banco central americano) \u00e9 eficiente e o Congresso americano est\u00e1 fazendo alguma coisa.<\/p>\n<p>Os europeus est\u00e3o desmoronando. Muitos pa\u00edses europeus est\u00e3o respondendo de modo nacionalista, sem solidariedade. O Jap\u00e3o est\u00e1 lidando bem. Isso porque j\u00e1 teve a experi\u00eancia com a Sars antes. Mas, se olharmos para a Europa e para os EUA, \u00e9 assustador. Na crise financeira (de 2008), t\u00ednhamos o G-20 trabalhando junto de modo eficiente. Eles produziram um plano comum que funcionou bem para o setor financeiro e em termos de pol\u00edtica fiscal. A recupera\u00e7\u00e3o pode n\u00e3o ter sido como se esperava, mas havia qualidade de lideran\u00e7as. Houve muita colabora\u00e7\u00e3o nos primeiros encontros do G-20. Essa imagem \u00e9 muito diferente da que temos hoje.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 f\u00e1cil tudo dar muito errado. N\u00e3o sei como essas pessoas v\u00e3o cooperar. J\u00e1 pararam de comercializar itens vitais, como ventiladores e m\u00e1scaras.<\/p>\n<p><strong>O sr. acredita que o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, est\u00e1 preparado para o desafio?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o conhe\u00e7o pessoalmente o sr. Bolsonaro, que parece ser um populista de extrema direita, ignorante e preconceituoso. Como Trump, mas um pouco pior. Apesar disso, sua equipe econ\u00f4mica parece competente e inteligente. S\u00e3o provavelmente muito mais Chicago do que preferiria. Mas as reformas que est\u00e3o fazendo eram necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>Como eles v\u00e3o funcionar nessa crise, dado que o Brasil n\u00e3o est\u00e1 numa posi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica forte e n\u00e3o pode aumentar seus gastos facilmente, realmente n\u00e3o sei. Ser\u00e1 um desafio grande para o Brasil. \u00c9 preciso uma capacidade do governo para gastar mais e rapidamente, o que \u00e9 dif\u00edcil para o Brasil, que j\u00e1 est\u00e1 altamente endividado. Vai ser um desafio grande para o Brasil e para muitos emergentes.<\/p>\n<p><strong>O sr. mencionou que o Brasil j\u00e1 est\u00e1 bastante endividado. E o sr. tamb\u00e9m tinha escrito que os governos deveriam prover solv\u00eancia ao sistema. Se o Brasil n\u00e3o pode fazer isso, como fica a situa\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p>Vai ser dif\u00edcil para o Brasil conseguir financiamento em moeda estrangeira. Talvez a quest\u00e3o seja quanto o governo conseguir\u00e1 emprestar domesticamente. Provavelmente, precisar\u00e1 da ajuda do Banco Central. Mas, dada a hist\u00f3ria brasileira de infla\u00e7\u00e3o e altas taxas de juros, vai ser muito dif\u00edcil fazer isso sem criar p\u00e2nico no mercado financeiro. O Brasil ter\u00e1 de realocar gastos existentes, o que pode ser dif\u00edcil politicamente. Politicamente, \u00e9 quase imposs\u00edvel mudar os gastos nessa situa\u00e7\u00e3o. Mas essa parece ser a coisa l\u00f3gica a se fazer. Gastar com o que realmente \u00e9 prioridade.<\/p>\n<p>Mas, para ser honesto, para um pa\u00eds como o Brasil responder de forma efetiva a essa emerg\u00eancia, vai ser um desafio gigantesco. Se voc\u00ea comparar o Brasil com a China, a China obviamente tem vantagens enormes em termos de recursos financeiros e de poder de organiza\u00e7\u00e3o e controle social. A maioria dos pa\u00edses emergentes n\u00e3o tem esses ativos. Os pr\u00f3ximos dois anos v\u00e3o ser muito dif\u00edceis para os mercados emergentes.<\/p>\n<p><strong>Uma das medidas que o governo brasileiro anunciou foi a autoriza\u00e7\u00e3o para empresas reduzirem jornadas e sal\u00e1rios dos trabalhadores. \u00c9 uma boa op\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Na Alemanha, que \u00e9 um pa\u00eds rico, o governo financia o trabalhador de meio per\u00edodo. O governo diz para a empresa reduzir o n\u00famero de horas que o funcion\u00e1rio trabalha e cobre a diferen\u00e7a de sal\u00e1rio. Mas o governo alem\u00e3o tem solv\u00eancia, pode emprestar a taxas de juros negativas. Se o governo brasileiro n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es financeiras de fazer isso, ent\u00e3o o que est\u00e1 sugerindo me parece fazer sentido. Caso contr\u00e1rio, as pessoas ficar\u00e3o desempregadas e em um problema terr\u00edvel. Acho que n\u00e3o \u00e9 uma m\u00e1 ideia se for algo organizado. Para mim, o problema no Brasil \u00e9 que a maioria das pessoas n\u00e3o trabalha em uma grande empresa. A maioria tem empregos informais. O que o governo vai fazer para ajudar essas pessoas?<\/p>\n<p><strong>Vai dar R$ 200 por pessoa por m\u00eas nos pr\u00f3ximos tr\u00eas meses.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o parece muito. Isso \u00e9 suficiente para viver no Brasil?<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>O problema \u00e9 que, em um pa\u00eds pobre como o Brasil, o governo n\u00e3o tem os recursos para proteger as pessoas. No Brasil, a grande quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 salvar o setor organizado, \u00e9 proteger a popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso encontrar um jeito que possibilite que as pessoas sobrevivam. Ajudar o trabalhador informal a manter sua renda \u00e9 a prioridade n\u00famero um.<\/p>\n<p><strong>O sr. j\u00e1 disse tamb\u00e9m que estamos em uma situa\u00e7\u00e3o de guerra e que os pa\u00edses devem gastar o quanto for preciso para incentivar a economia. Eles est\u00e3o agindo nessa dire\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Os Estados Unidos est\u00e3o fazendo isso. Eu n\u00e3o ficaria surpreso se alguns pa\u00edses tiverem um d\u00e9ficit neste ano e no pr\u00f3ximo de 10% do PIB ou mais. N\u00e3o estou prevendo isso, mas era onde est\u00e1vamos na crise financeira. Os principais pa\u00edses desenvolvidos, com exce\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia, podem fazer isso de forma f\u00e1cil sem gerar grandes problemas. Se voc\u00ea empresta na sua pr\u00f3pria moeda, tem o Banco Central para ajudar e com as taxas de juros da d\u00edvida do governo pr\u00f3ximas a zero, que \u00e9 basicamente onde est\u00e3o agora, n\u00e3o \u00e9 problema aumentar a d\u00edvida. O problema fiscal vai ser negligenci\u00e1vel. Em muitos pa\u00edses emergentes, como discutimos antes, o problema \u00e9 que vai ser mais dif\u00edcil conseguir dinheiro no mercado global por causa da avers\u00e3o ao risco.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, os brasileiros devem se preparar para uma recess\u00e3o profunda neste e no pr\u00f3ximo ano?<\/strong><\/p>\n<p>A economia global vai ter uma desacelera\u00e7\u00e3o massiva, possivelmente uma recess\u00e3o. O Brasil n\u00e3o \u00e9 superdependente dos mercados globais como outros emergentes, mas obviamente isso vai afetar os neg\u00f3cios brasileiros significativamente. Empresas importantes exportam e t\u00eam ativos no exterior. Deve haver um efeito deflacion\u00e1rio. As condi\u00e7\u00f5es no mercado de cr\u00e9dito para o Brasil ficar\u00e3o muito apertadas e as empresas brasileiras tamb\u00e9m ter\u00e3o mais dificuldade para emprestar nos mercados globais. Essa \u00e9 uma segunda raz\u00e3o para haver recess\u00e3o. Outra \u00e9 que, a\u00ed, pessoas tamb\u00e9m v\u00e3o ficar em casa e haver\u00e1 um choque de oferta. Esperaria que a economia desacelerasse consideravelmente, e j\u00e1 est\u00e1 em uma taxa de crescimento muito lenta. Se o Pa\u00eds for muito bem mesmo, o PIB ser\u00e1 pr\u00f3ximo de zero. Mas ficarei incrivelmente surpreso se n\u00e3o for negativo.<\/p>\n<p><b>Aproveite as oportunidades para fazer seu dinheiro render mais: <a href=\"https:\/\/cadastro.clear.com.br\/passo\/default\/step1?utm_source=infomoney&amp;utm_campaign=materia-redacao&amp;utm_medium=link\">abra uma conta na Clear com taxa ZERO para corretagem de a\u00e7\u00f5es!<\/a><\/b><\/p>\n<p>The post <a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.infomoney.com.br\/mercados\/recessao-deste-ano-deve-continuar-no-proximo-diz-martin-wolf\/\">Recess\u00e3o deste ano deve continuar no pr\u00f3ximo, diz Martin Wolf<\/a> appeared first on <a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.infomoney.com.br\">InfoMoney<\/a>.<\/p>\n<p>Source: Infomoney Blog Epolitica<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Infoeconomico.com.br &#8211; Seu Portal de Not\u00edcias<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crise econ\u00f4mica decorrente da pandemia do coronav\u00edrus \u00e9 mais grave que a de 2008, deve durar dois anos e ter efeitos profundos de longo prazo, segundo o comentarista-chefe de economia do jornal Financial Times, Martin Wolf. 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