{"id":21974,"date":"2019-04-26T15:20:37","date_gmt":"2019-04-26T18:20:37","guid":{"rendered":"http:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/familias-indigenas-separadas-por-itaipu\/"},"modified":"2019-04-26T15:20:37","modified_gmt":"2019-04-26T18:20:37","slug":"familias-indigenas-separadas-por-itaipu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/familias-indigenas-separadas-por-itaipu\/","title":{"rendered":"Fam\u00edlias ind\u00edgenas separadas por Itaipu"},"content":{"rendered":"<p>A imagem da capa de um livro, ilustrado com folhagens em tons verdes e terrosos, chegou cedo ao Whatsapp para os contatos do cacique Celso Ocoy, no segundo dia do Acampamento Terra Livre, que reuniu 4.000 ind\u00edgenas em Bras\u00edlia. Aquelas p\u00e1ginas contavam a real hist\u00f3ria de uma luta negligenciada por d\u00e9cadas pelo Estado brasileiro e pela hidrel\u00e9trica binacional Itaipu, um dos projetos mais simb\u00f3licos da ditadura militar instaurada em 1964.<\/p>\n<p>Os guarani do oeste do Paran\u00e1, na fronteira com o Paraguai, foram expulsos durante a ditadura para que a usina pudesse ser constru\u00edda. Terras da comunidade e \u00e1reas consideradas sagradas, como a cachoeira de Sete Quedas e cemit\u00e9rios, foram alagadas para a instala\u00e7\u00e3o da megaobra. \u201cEssa \u00e9 uma perda que os ind\u00edgenas nunca superaram\u201d, afirma Osmarina de Oliveira, mission\u00e1ria do Cimi Regional-Sul. <\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/itaipu_foto-jose-cruz-agencia-brasil_2-800x450.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-39842\" \/><figcaption>Raquel Dodge recebeu lideran\u00e7as av\u00e1-guarani durante apresenta\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio. Chefe do Minist\u00e9rio P\u00fablico prometeu se empenhar na demarca\u00e7\u00e3o de terras (Foto: Jos\u00e9 Cruz\/Ag\u00eancia Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Ocoy diz que anci\u00e3os recordam quando parentes eram retirados de suas terras e colocados em caminh\u00f5es rumo ao Paraguai. Al\u00e9m de serem desalojados, m\u00e3es e filhos foram separados \u2013 viola\u00e7\u00f5es que s\u00e3o, pela primeira vez em d\u00e9cadas, reconhecidas em documento de um \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico. \u201cItaipu destruiu n\u00e3o apenas moradias, mas tamb\u00e9m redes de parentesco, modos de produ\u00e7\u00e3o e a pr\u00f3pria base dos modos de vida e de significa\u00e7\u00e3o dos guarani ao avan\u00e7ar sobre seus lugares hist\u00f3ricos e sagrados\u201d, diz o documento, confirmando o relato dos ind\u00edgenas mais velhos. \u201cEste relat\u00f3rio \u00e9 a comprova\u00e7\u00e3o de todo o nosso sofrimento e da verdadeira hist\u00f3ria dos Guarani. \u00c9 a nossa primeira vit\u00f3ria\u201d, diz o cacique Ocoy. <\/p>\n<p>O relat\u00f3rio \u2018Av\u00e1-Guarani: a constru\u00e7\u00e3o de Itaipu e os direitos territoriais\u2019 \u00e9 resultado de um levantamento in\u00e9dito feito por um grupo de procuradores e uma antrop\u00f3loga a pedido da procuradora-geral da Rep\u00fablica, Raquel Dodge. Para esse grupo guarani, nada teve a \u201cmesma capacidade transformadora, destrutiva e genocida que a constru\u00e7\u00e3o da Usina Hidrel\u00e9trica de Itaipu\u201d, diz trecho do documento. \u201cA trajet\u00f3ria desse povo n\u00e3o chega a ser nota de rodap\u00e9 da hist\u00f3ria oficial\u201d, conclui.<\/p>\n<p>\u201cEsse relat\u00f3rio abre um novo cap\u00edtulo da hist\u00f3ria guarani e dos demais brasileiros. Voc\u00ea tem um \u00f3rg\u00e3o do estado, com independ\u00eancia para investigar, mostrando que o estado vem h\u00e1 mais de dois s\u00e9culos violando os direitos dos guarani, viola\u00e7\u00f5es essas consolidadas por Itaipu\u201d, diz o procurador Jo\u00e3o Akira Omoto, um dos respons\u00e1veis pelo trabalho. O grupo revisou cerca de 200 levantamentos produzidos sobre os guarani e mais de duas dezenas de documentos dos ind\u00edgenas que pediam reconhecimento do territ\u00f3rio e das viola\u00e7\u00f5es cometidas. Tamb\u00e9m visitou as comunidades onde eles vivem. <\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/itaipu_foto_caio_coronel-agencia-brasil-800x450.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-39843\" \/><figcaption>Durante obras de constru\u00e7\u00e3o de Itaipu, \u00edndios foram expulsos de suas terras, tratados como posseiros ou paraguaios (Foto: Caio Coronel\/Ag\u00eancia Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>O documento afirma que Itaipu, Incra e Funai, durante a constru\u00e7\u00e3o da usina, negaram a identifica\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas ao classificarem os \u00edndios como posseiros. A exemplo de outros levantamentos, como o relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, o do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal atesta a presen\u00e7a ind\u00edgena na regi\u00e3o desde o per\u00edodo colonial. \u201cAo contr\u00e1rio do que propaga a narrativa oficial, a regi\u00e3o onde foi constru\u00edda a Usina de Itaipu nunca foi desabitada, e tampouco havia apenas certos propriet\u00e1rios rurais no momento da sua constru\u00e7\u00e3o\u201d. Havia, portanto, um amplo territ\u00f3rio hist\u00f3rico dos ind\u00edgenas guarani, situado nas margens direita e esquerda do rio Paran\u00e1 e seus afluentes, onde hoje est\u00e1 a hidrel\u00e9trica. Atualmente vivem 24 comunidades ind\u00edgenas na regi\u00e3o. <\/p>\n<p>A dispers\u00e3o territorial ocorrida \u00e0 \u00e9poca da constru\u00e7\u00e3o da usina, diz o advogado Andr\u00e9 Dallagnol<strong>, <\/strong>fez com que os guarani fossem confundidos com povos n\u00f4mades que n\u00e3o tinham terras. Quem n\u00e3o foi obrigado a sair, fugiu. Outros foram \u201cconfinados\u201d em uma \u00e1rea reduzida, desconsiderando o modo de vida dos guarani, que vivem em fam\u00edlias nucleares distantes umas das outras. \u201cEles nunca foram respeitados.\u201d <\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>\u201cA trajet\u00f3ria desse povo n\u00e3o chega a ser nota de rodap\u00e9 da hist\u00f3ria oficial\u201d, diz relat\u00f3rio do MPF<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u201cNo nosso entender, essa \u00e9 uma hist\u00f3ria que a hist\u00f3ria n\u00e3o conta, ou seja, h\u00e1 uma tentativa de tratar essa quest\u00e3o invisibilizando os \u00edndios. Esse material aponta quest\u00f5es importantes sobre os impactos e os danos sofridos por esse povo na constru\u00e7\u00e3o de Itaipu\u201d, diz o procurador Julio Jos\u00e9, um dos respons\u00e1veis pela elabora\u00e7\u00e3o do documento.<\/p>\n<h1>A retomada<\/h1>\n<p>D\u00e9cadas depois de serem expulsos para a constru\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica, os guarani retornam \u00e0s \u00e1reas para retomar o que restou de floresta \u2013 na pr\u00e1tica, uma \u00e1rea pr\u00f3xima ao lago Paran\u00e1 e \u00e0s reservas ecol\u00f3gicas de Itaipu, como explica o cacique Fernando Lopes. \u201cRetomamos a \u00e1rea em que minha av\u00f3 vivia. Eles [Itaipu] prometeram que devolveriam nossas terras, mas at\u00e9 agora nada. J\u00e1 tentou despejar nossa fam\u00edlia daqui muitas vezes. A gente j\u00e1 sofreu bastante, n\u00e3o queremos sofrer mais.\u201d A retomada foi em fevereiro do ano passado. &nbsp;<\/p>\n<p>As fraudes sist\u00eamicas cometidas tanto por Itaipu quanto pelo Estado refletem nas comunidades at\u00e9 hoje, como mostra o relat\u00f3rio. H\u00e1 comunidades em condi\u00e7\u00f5es de extrema pobreza, fam\u00edlias que passam fome e sem condi\u00e7\u00f5es dignas de moradia. At\u00e9 hoje, os ind\u00edgenas s\u00e3o tratados como camponeses por Itaipu. Uma vez negada a identidade ind\u00edgena, tamb\u00e9m negam o direito \u00e0 terra.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/itaipu_guarani_ocoy_paran\u00e1_foto-acervo-itaipu-800x450.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-39844\" \/><figcaption>Por falta de esfor\u00e7os de Itaipu, Funai e Incra, poucas comunidades ind\u00edgenas foram identificadas antes da constru\u00e7\u00e3o da usina. Uma dela foi Ocoy (Foto: Acervo Itaipu)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>\u201cA ningu\u00e9m interessava reconhec\u00ea-los como ind\u00edgenas, porque na \u00e9poca para mover ind\u00edgenas voc\u00ea precisava de um estudo e de autoriza\u00e7\u00e3o do Congresso, e poderia levar tempo. E Itaipu n\u00e3o podia esperar\u201d, afirma Clovis Brighenti, doutor em hist\u00f3ria e professor na Universidade Federal da Integra\u00e7\u00e3o Latino-Americana. Al\u00e9m de Itaipu, contribu\u00edram para a expuls\u00e3o dos \u00edndios a Funai e o Incra, que os classificaram como posseiros ou paraguaios. <\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>\u00c9 fundamental reconhecer a hist\u00f3ria desse povo antes de decidir determinando a reintegra\u00e7\u00e3o, especialmente quando se tratar de \u00e1rea de Itaipu\u201d, Jo\u00e3o Akira Omoto<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Al\u00e9m disso, boa parte da sociedade paranaense, que desconhece a verdadeira hist\u00f3ria dos guarani, entende os ind\u00edgenas como invasores e oportunistas. Em alguns locais, a hostilidade \u00e9 tamanha que comerciantes n\u00e3o vendem alimentos para fam\u00edlias guarani. Em Santa Helena, houve manifesta\u00e7\u00e3o contra a presen\u00e7a dos ind\u00edgenas. \u201cOs guarani est\u00e3o \u00e0 merc\u00ea de todo tipo de viol\u00eancia. H\u00e1 uma press\u00e3o da cidade contra eles, da popula\u00e7\u00e3o querer fazer justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os\u201d, afirma Brighenti. &nbsp;<\/p>\n<p>Os conflitos se acirram e Itaipu entra com v\u00e1rios pedidos de reintegra\u00e7\u00e3o de posse. H\u00e1 senten\u00e7as judiciais, afirmam especialistas ouvidos pela reportagem, que reproduzem esses pr\u00e9-conceitos e enganos hist\u00f3ricos \u2013 como uma que diz que os guarani s\u00e3o paraguaios. \u201cH\u00e1 in\u00fameras a\u00e7\u00f5es de primeira e segunda inst\u00e2ncias suspendidas pelo Supremo Tribunal Federal. \u00c9 fundamental reconhecer a hist\u00f3ria desse povo antes de decidir determinando a reintegra\u00e7\u00e3o, especialmente quando se tratar de \u00e1rea de Itaipu\u201d, afirma Akira. &nbsp;<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/itaipu_desenho_indios_moradias_erva-mate-credito-livro-ava-guarani-800x450.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-39845\" \/><figcaption>Moradias guarani \u00e0s margens do rio Paran\u00e1, na \u00e9poca em que trabalhavam com o cultivo de erva-mate (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/MPU)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>O relat\u00f3rio aponta, ainda, medidas reparat\u00f3rias poss\u00edveis, tais como reconhecimento p\u00fablico das viola\u00e7\u00f5es cometidas, titula\u00e7\u00e3o das terras e uma forma de compensa\u00e7\u00e3o permanente da \u00e1rea alagada, como prev\u00ea a Constitui\u00e7\u00e3o, dentre outros. Caso o governo brasileiro n\u00e3o avance na demarca\u00e7\u00e3o de terras \u2013 o presidente Jair Bolsonaro (PSL) declarou mais de uma vez que n\u00e3o autorizaria novas demarca\u00e7\u00f5es \u2013, Dodge afirmou que o Minist\u00e9rio P\u00fablico vai se articular com este objetivo. \u201cO trabalho do Minist\u00e9rio P\u00fablico \u00e9 promover a demarca\u00e7\u00e3o, caso n\u00e3o haja essa demarca\u00e7\u00e3o pelos \u00f3rg\u00e3os pr\u00f3prios do Poder Executivo\u201d, disse Dodge.  <\/p>\n<p>Procurada pela Rep\u00f3rter Brasil, Itaipu, em nota, afirmou que o \u201co reassentamento foi feito de forma rigorosamente legal\u201d.<a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2019\/04\/integra-da-nota-da-itaipu\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\" Leia aqui a \u00edntegra da resposta (abre numa nova aba)\"> Leia aqui a \u00edntegra da resposta<\/a>.<\/p>\n<\/p>\n<p><\/p>\n<p>O post <a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2019\/04\/familias-indigenas-separadas-por-itaipu\/\">Fam\u00edlias ind\u00edgenas separadas por Itaipu<\/a> apareceu primeiro em <a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\">Rep\u00f3rter Brasil<\/a>.<\/p>\n<p>Fonte: Reporter Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A imagem da capa de um livro, ilustrado com folhagens em tons verdes e terrosos, chegou cedo ao Whatsapp para os contatos do cacique Celso Ocoy, no segundo dia do Acampamento Terra Livre, que reuniu 4.000 ind\u00edgenas em Bras\u00edlia. 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