{"id":20912,"date":"2019-03-30T10:30:52","date_gmt":"2019-03-30T13:30:52","guid":{"rendered":"http:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/criticada-pelo-governo-metodologia-paulo-freire-revolucionou-povoado-no-sertao\/"},"modified":"2019-03-30T10:30:52","modified_gmt":"2019-03-30T13:30:52","slug":"criticada-pelo-governo-metodologia-paulo-freire-revolucionou-povoado-no-sertao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/criticada-pelo-governo-metodologia-paulo-freire-revolucionou-povoado-no-sertao\/","title":{"rendered":"Criticada pelo governo, metodologia Paulo Freire revolucionou povoado no sert\u00e3o"},"content":{"rendered":"<figure class=\"wp-block-embed-youtube aligncenter wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\">\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<\/div>\n<\/figure>\n<p>Um povoado desconhecido no sert\u00e3o brasileiro, com alta taxa de pobreza e uma multid\u00e3o de trabalhadores analfabetos, viveu uma revolu\u00e7\u00e3o: em apenas 40 horas, um grupo de professores liderados pelo educador Paulo Freire ensinou 300 adultos a ler e a escrever. Mais do que criar novos leitores, a primeira experi\u00eancia de alfabetiza\u00e7\u00e3o em massa do pa\u00eds, realizada em 1963, em Angicos, no Rio Grande do Norte, gerou novas possibilidades de emprego, deu aos trabalhadores o t\u00e3o sonhado poder do voto e os ensinou sobre seus direitos \u2013 especialmente os trabalhistas.<\/p>\n<p>O resultado deu t\u00e3o certo que inspirou o Plano Nacional de Alfabetiza\u00e7\u00e3o, que nunca chegou a sair do papel por causa do golpe militar de 1964. Alguns dos principais articuladores da ideia, entre eles o pr\u00f3prio Paulo Freire, terminaram exilados. <\/p>\n<p>Mais de cinco d\u00e9cadas depois, o \u00f3dio ao educador voltou \u00e0 cena e guia a atual pol\u00edtica educacional no pa\u00eds. O presidente Jair Bolsonaro afirmou, enquanto candidato, que entraria com um \u201clan\u00e7a-chamas no MEC para expulsar Paulo Freire l\u00e1 de dentro\u201d.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Angicos_Foto-Caio-Castor-800x450.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-38986\" \/><figcaption>O ex-aluno Paulo Alves de Sousa diz que n\u00e3o guardou nada da \u00e9poca do curso de alfabetiza\u00e7\u00e3o: \u201cSe a pol\u00edcia pegasse, a gente ia preso\u201d (Foto: Caio Castor\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Ironicamente, o projeto executado em Angicos foi financiado pela Alian\u00e7a para o Progresso, do governo dos Estados Unidos, que via na alfabetiza\u00e7\u00e3o dos brasileiros uma das armas na luta contra o avan\u00e7o do comunismo na Am\u00e9rica Latina. <\/p>\n<p>Enquanto o m\u00e9todo Paulo Freire virou uma bandeira a ser combatida, 13 milh\u00f5es de jovens e adultos com mais de 15 anos ainda n\u00e3o sabem ler nem escrever, dado que coloca o Brasil entre os dez pa\u00edses com mais analfabetos no mundo, segundo a Unesco (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura).<\/p>\n<p>\u201cO projeto de Angicos custava 36 d\u00f3lares por aluno e o prazo de aprendizagem era curto. Se at\u00e9 hoje n\u00e3o foi retomado, \u00e9 por inten\u00e7\u00e3o de n\u00e3o gerar condi\u00e7\u00f5es de aprendizagem para uma parte da popula\u00e7\u00e3o, que termina por n\u00e3o desenvolver o seu potencial\u201d, diz o advogado Marcos Guerra, que foi o coordenador da experi\u00eancia na cidade. Ele explica que a cidade foi escolhida por ter, na d\u00e9cada de 1960, o maior \u00edndice de analfabetismo do Rio Grande do Norte. <\/p>\n<h1>A palavra \u00e9 TRABALHO<\/h1>\n<p>Para angariar os alunos em Angicos, professores percorreram a cidade anunciando porta-a-porta a nova escola. Como a cidade n\u00e3o tinha escolas suficientes, salas de aulas foram improvisadas em casas de moradores e at\u00e9 na delegacia, onde tinham presos e policiais analfabetos. Na d\u00e9cada de 1960, 40% dos brasileiros eram analfabetos e s\u00f3 um ter\u00e7o das crian\u00e7as frequentavam a escola. <\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Angicos4_Foto-Caio-Castor-800x450.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-38987\" \/><figcaption>Cerca de 300 moradores de Angicos participaram do curso de alfabetiza\u00e7\u00e3o de adultos e ganharam o direito ao voto (Foto: arquivo)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Considerada subversiva pelos militares, a metodologia consistia, primeiro, em levantar &nbsp;palavras que faziam parte do cotidiano dos alunos. \u201cPor exemplo, \u2018tijolo\u2019. A professora perguntava quem sabia fazer tijolo, quanto vendia, quem comprava, de quem era o lucro maior \u2013 se do propriet\u00e1rio ou do trabalhador que o fabrica. Chamavam isso de aula de politiza\u00e7\u00e3o\u201d, lembra a ex-aluna Maria Eneide de Ara\u00fajo Melo, 62, que hoje \u00e9 professora aposentada. <\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, as condi\u00e7\u00f5es de trabalho na regi\u00e3o eram prec\u00e1rias, havia muita desigualdade social, e a maior discuss\u00e3o se deu quando os professores projetaram para os alunos a palavra \u2018trabalho\u2019. A partir desse momento, foram incentivados a ler em sala artigos da CLT (Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho).<\/p>\n<p>\u201cEles passaram a reivindicar direitos, como repouso semanal remunerado e jornada de trabalho, que era intensiva e ultrapassava as horas estabelecidas pela lei. A carteira assinada os entusiasmava\u201d, conta a ju\u00edza aposentada Valqu\u00edria F\u00e9lix da Silva, 78, que foi uma das professoras do curso na cidade.<\/p>\n<p>Depois do curso, uma greve na cidade parou a constru\u00e7\u00e3o de uma obra. Acredita-se que eles teriam sido inspirados pelo ensino dos direitos trabalhistas em sala de aula, com a metodologia freiriana. \u201cOs trabalhadores disseram ao dono da empresa que sabiam que tinham direitos. Eles pediam carteira assinada, repouso semanal remunerado e f\u00e9rias. E o patr\u00e3o disse: \u2018eu n\u00e3o dou isso n\u00e3o, ningu\u00e9m d\u00e1\u2019\u201d, lembra Guerra.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Angicos6_Foto-arquivo-800x450.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-38988\" \/><figcaption>O educador Paulo Freire faz forma\u00e7\u00e3o de professores para replicarem sua metodologia (Foto: arquivo)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<h1>Novos caminhos<\/h1>\n<p>Maria Eneide nem tinha completado os 7 anos necess\u00e1rios para iniciar a alfabetiza\u00e7\u00e3o, quando tratou de convencer a m\u00e3e e o pai analfabetos de que precisavam aproveitar a nova escola que chegava na cidade. \u201cMeu pai trabalhava na agricultura, sa\u00eda de manh\u00e3 e s\u00f3 voltava \u00e0 noite. \u00c0s vezes, ele estava cansado, pensava em faltar, mas a professora ia l\u00e1 em casa busc\u00e1-lo para a escola\u201d, lembra ela, que acompanhou os pais no curso.<\/p>\n<p>Depois da formatura, o pai deixou o trabalho no campo para ser pedreiro e, por fim, virou comerciante na cidade. A m\u00e3e, por sua vez, decidiu realizar o sonho de entrar para a aula de corte e costura, porque agora j\u00e1 sabia anotar as medidas.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Angicos5_Foto-Caio-Castor-800x450.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-38989\" \/><figcaption>Francisca de Brito, ex-aluna, frequentou o curso de alfabetiza\u00e7\u00e3o mesmo sob amea\u00e7as da m\u00e3e (Foto: Caio Castor\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Mas a pequena Maria Eneide queria ser professora como \u201ca dona Valqu\u00edria\u201d, com quem aprendeu a ler na turma de adultos. \u201cFui alfabetizada no curso de Paulo Freire. Da\u00ed, quando eu entrei para o primeiro ano do fundamental, eu j\u00e1 falava de reforma agr\u00e1ria, das leis da Constitui\u00e7\u00e3o. As professoras n\u00e3o gostavam, diziam que eu estava mentindo. As pessoas n\u00e3o eram esclarecidas naquela \u00e9poca\u201d, diz ela, que acabou estudando pedagogia e hoje \u00e9 professora na cidade.<\/p>\n<h1>Novos leitores e eleitores<\/h1>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o em Angicos aconteceu tamb\u00e9m pela realiza\u00e7\u00e3o de um desejo antigo de muita gente: o poder do voto. Naquela \u00e9poca, analfabetos n\u00e3o podiam votar. Antes do curso, havia cerca de 800 eleitores cadastrados na cidade. Depois da formatura, o munic\u00edpio ganhou 300 novas inscri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cA gente que era pobre n\u00e3o era nem bem visto, ningu\u00e9m podia nem entrar no meio da sociedade, em festa desse povo, porque era pobre, era da cor morena. Mas da\u00ed a professora come\u00e7ou a explicar que a gente ia aprender a ler para conhecer os nossos direitos, e eu tinha vontade de aprender, fazer meu nome que era pra votar. E eu aprendi\u201d, lembra Luzia de Andrade, 88.<\/p>\n<p>Apesar do entusiasmo de todos, o clima em 1963 j\u00e1 era tenso no pa\u00eds. Logo ap\u00f3s o golpe militar, Paulo Freire foi demitido da ent\u00e3o Universidade do Recife, permaneceu 70 dias preso e, em seguida, teve que deixar o pa\u00eds, assim como outros educadores do projeto, como Marcos Guerra.<\/p>\n<p>Em Angicos, estabeleceu-se um sil\u00eancio que durou quase 30 anos. Estava proibido falar e lembrar das 40 horas que haviam mudado a cidade. \u201cQuando chegou essa not\u00edcia de que o homem [Paulo Freire] tinha sido exilado, que tinha sido preso, muita gente, com medo, escondeu caderno, escondeu livro, queimou\u201d, conta Francisca de Brito, 74. \u201cA gente n\u00e3o tem nada guardado dessa \u00e9poca porque se a pol\u00edcia pegasse, a gente ia preso\u201d, diz Paulo Alves de Sousa, 77, outro ex-aluno.<\/p>\n<h1>A massa virou povo<\/h1>\n<p>Antes do golpe de 1964, a experi\u00eancia era t\u00e3o importante para o pa\u00eds que o \u00faltimo dia de aulas em Angicos contou com a presen\u00e7a do ent\u00e3o o presidente Jo\u00e3o Goulart, do presidente da Sudene (Superintend\u00eancia do Desenvolvimento do Nordeste) Celso Furtado e de governadores de estados do Nordeste.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Angicos2_Foto-Caio-Castor-800x450.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-38991\" \/><figcaption>Marcos Guerra, coordenador do curso em Angicos, foi exilado ap\u00f3s o golpe de 1964 (Foto: Caio Castor\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Em meio \u00e0s autoridades, um aluno pediu a palavra e improvisou um discurso sobre a experi\u00eancia na cerim\u00f4nia de formatura. \u201cEm outra hora, n\u00f3s era massa, hoje j\u00e1 n\u00e3o somos massa, estamos sendo povo\u201d, disse o agricultor Ant\u00f4nio Ferreira.<\/p>\n<p>O presidente Jo\u00e3o Goulart ainda ficou curioso ao saber que uma crian\u00e7a tinha aprendido a ler com a metodologia voltada para os adultos. Era Maria Eneide, chamada \u00e0 frente para testar as novas habilidades para o p\u00fablico ilustre.<\/p>\n<p>\u201cEle disse: \u2018l\u00ea aqui\u2019. E eu li. Depois me perguntou: \u2018voc\u00ea quer ganhar o que?\u2019 E respondi que queria uma bolsa para levar o material para a escola\u201d. Trinta anos depois, em visita a Angicos, Paulo Freire decidiu refazer a pergunta para a ex-aluna: \u201cse o presidente hoje perguntasse o que voc\u00ea queria de presente, o que voc\u00ea diria?\u201d. \u201cEu queria sal\u00e1rio digno a todos os professores\u201d.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>O post <a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2019\/03\/criticada-pelo-governo-metodologia-paulo-freire-revolucionou-povoado-no-sertao\/\">Criticada pelo governo, metodologia Paulo Freire revolucionou povoado no sert\u00e3o<\/a> apareceu primeiro em <a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\">Rep\u00f3rter Brasil<\/a>.<\/p>\n<p>Fonte: Reporter Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um povoado desconhecido no sert\u00e3o brasileiro, com alta taxa de pobreza e uma multid\u00e3o de trabalhadores analfabetos, viveu uma revolu\u00e7\u00e3o: em apenas 40 horas, um grupo de professores liderados pelo educador Paulo Freire ensinou 300 adultos a ler e a escrever. 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