{"id":14468,"date":"2018-12-20T13:45:29","date_gmt":"2018-12-20T15:45:29","guid":{"rendered":"http:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/cristovam-aborda-papel-do-estado-na-economia-e-legado-de-celso-furtado\/"},"modified":"2018-12-20T13:45:29","modified_gmt":"2018-12-20T15:45:29","slug":"cristovam-aborda-papel-do-estado-na-economia-e-legado-de-celso-furtado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/infoeconomico.com.br\/portal\/cristovam-aborda-papel-do-estado-na-economia-e-legado-de-celso-furtado\/","title":{"rendered":"Cristovam aborda papel do Estado na economia e legado de Celso Furtado"},"content":{"rendered":"<p>O senador Cristovam Buarque (PPS-DF) considera que a participa\u00e7\u00e3o do Estado na economia, atrav\u00e9s de gastos p\u00fablicos em infraestrutura e na indu\u00e7\u00e3o da demanda, apesar de ter levado ao desenvolvimento de diversos pa\u00edses, \u00e9 um modelo esgotado. Isso porque, disse o senador que tamb\u00e9m \u00e9 professor de economia da Universidade de Bras\u00edlia, a capacidade fiscal do governo chegou ao seu limite, num contexto em que a infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais toler\u00e1vel.<\/p>\n<p>Cristovam concedeu a entrevista como parte da s\u00e9rie de reportagens \u201cA Cepal e o Brasil\u201d, que aborda os 70 anos da Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina, \u00f3rg\u00e3o criado pela ONU para auxiliar no desenvolvimento s\u00f3cio-econ\u00f4mico da regi\u00e3o. Em junho, o senador prop\u00f4s a realiza\u00e7\u00e3o de uma sess\u00e3o especial em homenagem \u00e0 data, mas que acabou n\u00e3o se concretizando devido a choques de agenda com alguns dos convidados.<\/p>\n<p>Nesta entrevista, o senador fala ainda sobre a sua amizade de d\u00e9cadas com Celso Furtado e a fun\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o na supera\u00e7\u00e3o do atraso.<\/p>\n<p>A s\u00e9rie de reportagens sobre os 70 anos da Cepal est\u00e1 dispon\u00edvel <a class=\"external-link\" href=\"http:\/\/www12.senado.leg.br\/radio\/1\/series-especiais\/radio-senado-celebra-os-70-anos-da-cepal\">aqui<\/a>. Al\u00e9m do Portal de Not\u00edcias, as entrevistas e mat\u00e9rias tamb\u00e9m s\u00e3o veiculadas pela R\u00e1dio Senado, no programa \u201cConex\u00e3o Senado\u201d \u00e0s 8h30, com reprise \u00e0s 22h.<\/p>\n<p><strong>Agencia Senado \u2013 A Cepal \u00e9 tradicionalmente ligada ao papel do Estado na indu\u00e7\u00e3o do desenvolvimento econ\u00f4mico. Como voc\u00ea avalia a import\u00e2ncia deste legado e a relev\u00e2ncia deste enfoque hoje?<\/strong><\/p>\n<p><strong> Cristovam Buarque \u2013 <\/strong>Este enfoque inicia-se na Alemanha com Friedrich List por volta de 1850. Ele foi o grande idealizador da interven\u00e7\u00e3o do Estado para dinamizar a economia no sistema capitalista. Foi a partir da\u00ed que se consolidou esta linha de pensamento. E (John Maynard) Keynes, nos anos 1930 e 1940, levou este enfoque al\u00e9m, muito al\u00e9m. Considerando que o Estado era o indutor da infra-estrutura e, a partir da grande contribui\u00e7\u00e3o de Keynes, tamb\u00e9m o indutor na demanda.<\/p>\n<p>O que ele chamava ent\u00e3o de demanda agregada, seria constru\u00edda gra\u00e7as a gastos p\u00fablicos. E isto de fato deu grandes resultados do ponto de vista da recupera\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses ricos depois da crise de 1929. E no desenvolvimento dos pa\u00edses que se chamavam de Terceiro Mundo, ou subdesenvolvidos. Funcionou bem, ningu\u00e9m pode negar que estes pa\u00edses cresceram na economia. Mas penso que este modelo hoje est\u00e1 esgotado.<\/p>\n<p>Eu creio que se esgotou primeiro porque o Estado esgotou a capacidade de financiamento. Antes o Estado, gastando recursos, gerava uma infla\u00e7\u00e3o entre 3% a 5%. O que ocorreu a partir dos anos 70 e 80, foi a infla\u00e7\u00e3o descontrolada, a hiperinfla\u00e7\u00e3o. Houve um esgotamento fiscal. E al\u00e9m disso ocorreu o esgotamento gerencial. O Estado n\u00e3o tem mais capacidade de gerir dezenas de empresas estatais, como no caso do Brasil. Elas come\u00e7am a ficar ineficientes e corruptas.<\/p>\n<p>Por outro lado, tamb\u00e9m ficou claro que o keynesianismo gerava uma din\u00e2mica econ\u00f4mica, mas n\u00e3o em benef\u00edcio dos pobres. Terminava concentrando a renda, gra\u00e7as inclusive ao uso da infla\u00e7\u00e3o. Ela permite aos ricos protegerem-se da desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda, n\u00e3o possibilitando aos pobres mecanismos semelhantes.<\/p>\n<p><strong>Vamos falar agora de um cepalino hist\u00f3rico, com quem o senhor teve uma amizade pessoal durante d\u00e9cadas: Celso Furtado. O senhor chegou a lan\u00e7ar em 2007 um livro p\u00f3stumo em homenagem a Furtado [que faleceu em 2004] registando entrevistas suas com ele (<i>Foto de uma conversa<\/i>, ed. Paz e Terra). Qual a import\u00e2ncia da obra de Furtado na sua trajet\u00f3ria como economista e homem p\u00fablico?<\/strong><\/p>\n<p><strong> CB \u2013 <\/strong>Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Josu\u00e9 de Castro e Ignacy Sachs s\u00e3o os economistas e cientistas sociais que mais exerceram influ\u00eancia na minha forma\u00e7\u00e3o. Furtado \u00e9 extremamente relevante, porque quando voc\u00ea l\u00ea <i>Forma\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica do Brasil <\/i>[livro cl\u00e1ssico de autoria de Furtado, lan\u00e7ado em 1959], voc\u00ea come\u00e7a a explicar, e n\u00e3o apenas a decorar a hist\u00f3ria do nosso pa\u00eds. Nos meados da d\u00e9cada de 80, tornei-me reitor da UnB, e ele era ministro da Cultura. Foi quando desenvolvemos uma amizade pessoal, e eu passei a admir\u00e1-lo ainda mais.<\/p>\n<p>Inclusive estive no apartamento dele no Rio de Janeiro dez dias antes da sua morte [por parada card\u00edaca, no dia 20 de novembro de 2004]. Me lembro bem que nesse dia discordei da vis\u00e3o dele sobre a infla\u00e7\u00e3o. Ele defendia a tese de que uma infla\u00e7\u00e3o, por exemplo, acima de 5% era uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para o financiamento do desenvolvimento. Mas eu discordei dele, porque em na\u00e7\u00f5es como o Brasil, marcadas ainda por uma forte cultura inflacion\u00e1ria, este tipo de condu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica pode sair do controle.<\/p>\n<p>Tecnicamente, ele tinha raz\u00e3o, porque o governo emite, gera dinheiro para investir em estradas, escolas e cria\u00e7\u00e3o de demanda atrav\u00e9s da gera\u00e7\u00e3o de empregos. Mas, no Brasil e na Am\u00e9rica Latina, eu entendo que o controle inflacion\u00e1rio mais r\u00edgido tem que ser sempre uma prioridade. Aqui, a autoridade monet\u00e1ria pode at\u00e9 achar que vai conseguir controlar se adotar uma pol\u00edtica mais leniente, mas no final acaba quebrando a cara.<\/p>\n<p><strong>Hoje a Cepal tem conduzido muito sua atua\u00e7\u00e3o junto \u00e0s na\u00e7\u00f5es latinas, na busca da efici\u00eancia econ\u00f4mica por meio da supera\u00e7\u00e3o das desigualdades. O senhor concorda que uma grande desigualdade social pode tornar uma economia estruturalmente ineficiente? <\/strong><\/p>\n<p>A Cepal, sem d\u00favida, prioriza este enfoque, mas avalio que ela ainda n\u00e3o colocou a educa\u00e7\u00e3o realmente no primeiro posto. A desigualdade social \u00e9 consequ\u00eancia da falta de um sistema educacional satisfat\u00f3rio. N\u00e3o haver\u00e1 sal\u00e1rios altos para quem n\u00e3o tiver um elevado grau de educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, se a Cepal, desde a d\u00e9cada de 50, tivesse colocado a educa\u00e7\u00e3o no primeiro posto, tenho a convic\u00e7\u00e3o de que, por exemplo, o Nordeste brasileiro n\u00e3o seria hoje ainda atrasado se comparado \u00e0s demais regi\u00f5es. A despeito de todos os investimentos na industrializa\u00e7\u00e3o, frutos por exemplo da atua\u00e7\u00e3o da Sudene [Superintend\u00eancia de Desenvolvimento do Nordeste], estruturada por Furtado em seus primeiros anos, o Nordeste continua atr\u00e1s das demais regi\u00f5es. A Coreia do Sul, sem Cepal, compreendeu melhor esta revolu\u00e7\u00e3o educacional e deu o salto.<\/p>\n<p>Estou convencido que o principal vetor do progresso s\u00e3o os investimentos na educa\u00e7\u00e3o de base.<\/p>\n<p><strong>A Cepal hoje est\u00e1 engajada na ades\u00e3o dos pa\u00edses latino-americanos \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas vinculadas \u00e0 <a class=\"external-link\" href=\"http:\/\/nacoesunidas.org\/pos2015\/agenda2030\/\">Agenda 2030 da ONU<\/a>, os Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (ODS). Busca em linhas gerais superar o desenvolvimento predat\u00f3rio em regi\u00f5es como a Amaz\u00f4nia pelo novo enfoque da \u201ceconomia verde\u201d. O senhor acredita que este enfoque \u00e9 capaz de gerar postos de trabalho em grande quantidade, como por exemplo o Brasil tanto requer? O senhor sabe que estes paradigmas inovadores ainda sofrem, na pr\u00e1tica, contesta\u00e7\u00f5es por parte de setores ligados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o em nosso pa\u00eds.<\/strong><\/p>\n<p>Se n\u00e3o houver prioridade para a educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o vai funcionar. O sucesso para a sustentabilidade n\u00e3o vir\u00e1 apenas da alternativa verde, mas vir\u00e1 do que eu chamo de \u201calternativa azul\u201d. Verde \u00e9 produzir mais com mat\u00e9rias primas renov\u00e1veis. A \u201calternativa azul\u201d \u00e9 consumir menos.<\/p>\n<p>N\u00e3o haver\u00e1 combust\u00edvel suficiente mesmo com base no \u00e1lcool, se continuarmos produzindo tantos autom\u00f3veis. Enquanto o transporte for privado, baseado no autom\u00f3vel, mesmo que todo ele utilize o combust\u00edvel verde, n\u00e3o haver\u00e1 o suficiente. O \u00e1lcool tamb\u00e9m \u00e9 finito, porque para aumentar a produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rios novos hectares. Ent\u00e3o vai faltar comida, ou vai faltar terra.<\/p>\n<p>Em resumo: a mudan\u00e7a desses padr\u00f5es de consumo predat\u00f3rios tamb\u00e9m est\u00e3o ligados a uma maior conscientiza\u00e7\u00e3o, que nasce a partir de investimentos consistentes na educa\u00e7\u00e3o de base.<\/p>\n<p>Source: Senado Noticias Gerais<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O senador Cristovam Buarque (PPS-DF) considera que a participa\u00e7\u00e3o do Estado na economia, atrav\u00e9s de gastos p\u00fablicos em infraestrutura e na indu\u00e7\u00e3o da demanda, apesar de ter levado ao desenvolvimento de diversos pa\u00edses, \u00e9 um modelo esgotado. 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